Você usa o sexo como moeda de troca?

Você usa o sexo como moeda de troca?

Por exemplo: se faz “greve” para conseguir algo ou punir a parceria, a resposta é sim...

Por Ana Luiza Fanganiello

Há séculos as pessoas recorrem ao poder de sedução para conseguirem o que desejam – casamento, dinheiro, presentes... Dependendo do objetivo, proíbem ou dão acesso ao seu corpo como fonte de prazer. Exemplo disso é fazer greve de sexo até que a parceria mude de atitude em relação às crianças ou prometer a realização de uma fantasia sexual depois de ganhar um carro novo. No contexto da solteirice, seria não transar no primeiro encontro (apesar da vontade) por medo de que a outra pessoa desista de um futuro relacionamento.

Confira a seguir a opinião da psicóloga e sexóloga Ana Luiza Fanganiello sobre o assunto.

  • Historicamente o sexo é usado como moeda de troca. A própria virgindade da mulher cis era negociada para ser “entregue” depois do casamento. Ainda hoje, algumas noivas não-virgens prometem aos parceiros práticas como sexo anal na lua de mel – como se quisessem “recompensá-los” com algo inédito após o enlace. O que você pensa a respeito disso?

ANA – A virgindade da mulher cis como algo que se almeja em uma relação heteronormativa é muito antiga. Ela teria sua “pureza” para entregar ao homem como um prêmio especial. Mas essa pureza nada mais é que a falta de comparação sexual - assim ela não saberá se aquele sexo é bom ou ruim, se aquele pênis é grande ou pequeno etc. Aliás, dentro dessa visão machista, patriarcal e religiosa, a mulher também não deve se masturbar para não descobrir que é capaz de ter prazer sozinha...

Então, as noivas com vida sexual ativa antes do casamento prometem essas coisas porque sentem que estão “devendo” algo aos parceiros e também como “motivação” para não desistirem do compromisso. É absurdo, mas reflete a forma como a nossa sociedade foi construída e toda a opressão de gênero.

  • Outras pessoas (especialmente mulheres cis) se recusam a transar nos primeiros encontros para “garantir” que a relação continue. Temem que, se “derem” o sexo logo, a parceria perca o interesse... E aí?

ANA – Pois é, ela não transa mesmo que esteja morrendo de tesão porque assim mantém algum mistério na relação. É complicado porque você não trata a sexualidade como algo natural e simples, mas como um jogo de poder. Desde a Grécia Antiga, existe essa percepção de que é possível conseguir as coisas com sexo - e já naquela época a mulher entendeu que detinha essa capacidade de barganhar com o homem.

  • É comum ouvirmos relatos de homens cis que chantageiam suas parceiras com frases como: “Se não transar comigo, vou procurar fora de casa” ou “Na rua tem quem faça sexo anal [ou a realização de algum fetiche]”. Como lidar com essa situação?

ANA – De novo voltamos para a questão machista, de colocar a sexualidade em um lugar de chantagem, de que a mulher deve aceitar qualquer coisa... Afinal de contas, ela tem que ser “uma dama na rua e uma puta na cama”. O homem sempre pode exercer a sexualidade do jeito que ele bem entender, né? Esse pode ser um indício de que a pessoa está em um relacionamento abusivo. Nesse caso, depois de tentar um diálogo saudável com o parceiro sobre as chantagens, vale recorrer à sua rede de apoio (familiares, amizades) e até mesmo à terapia para avaliar se faz sentido seguir nessa relação.

  • Por outro lado, algumas mulheres usam a “greve de sexo” para conseguir algo (que a parceria realize tarefas domésticas, compre uma viagem para o casal etc) ou como forma de punição (por uma traição, por exemplo). Você acha válido?

ANA – A mulher entra nessa história de “greve de sexo” e “jogo de troca” (por exemplo, fazer um sexo oral para ganhar algo) porque socialmente aprendeu a ser assim. Isso é temerário porque a gente precisa transar pelo desejo e pelo prazer, não porque a outra pessoa tem que fazer alguma coisa. Óbvio que existem pessoas que transam por dinheiro e sobrevivência, mas não é sobre isso...

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