Uma mulher negra está deitada de lado em uma cama, apoiando um dos braços sob a cabeça, e olhando para a câmera.

Você já fingiu orgasmo por medo de magoar?

O ego frágil dos homens cis é um dos principais motivos para esse comportamento feminino tão comum, segundo pesquisas

Por Ana Luiza Fanganiello

Quando o sexo está tedioso, cansativo, desconfortável... qual a sua atitude diante da parceria? Avisar que não está gostoso desse ou daquele jeito? Você tem medo de que a verdade magoe a outra pessoa? Quase 60% das mulheres cisgênero heterossexuais já fingiram um orgasmo, de acordo com uma pesquisa americana publicada no jornal acadêmico Archives of Sexual Behaviour (2019). Destas, 55% reconheceram que a prática é frequente.

Não existe uma única explicação para esse comportamento, mas o machismo me parece o mais evidente de todos. Na relação heterocisnormativa, persiste a ideia de que o homem é o provedor do prazer: ele “dá” o orgasmo para mulher – de preferência, por meio da penetração (sendo que a maioria das pessoas com vagina só alcança o clímax com estímulo direto ou indireto do clitóris).

Se o gozo não vem, muitas mulheres sentem que precisam suprir o ego frágil do parceiro com um gemido forçado que lhes diga: “Nossa, como você é incrível na cama!”. Além disso, há muito tempo estabelecemos um padrão de performance sexual esperada em que “a outra pessoa tem que gostar do que está acontecendo senão eu fico mal”. Ou seja, levamos imediatamente para o pessoal.  Mulheres lésbicas e homens também fingem orgasmo para não decepcionar suas parcerias.

Alguns estudos apontam que menos de 20% dos homens cisgênero já simularam o ápice da excitação – inclusive porque é mais difícil disfarçar a ausência da ejaculação. Essa diferença entre os números mostra que existe, sim, uma questão de gênero nesse assunto. Muitas mulheres cis não conhecem a própria anatomia, não se masturbam, têm dificuldade de chegar ao orgasmo no sexo e acreditam naquilo que a  pornografia mostra.

Os filmes pornôs criaram a expectativa de que, se a pessoa não geme alto e não está 100% descabelada e suada, não está tendo prazer. Isso mexe com o imaginário e o inconsciente coletivo desde muito cedo porque raramente há educação sexual adequada na juventude. Temos orgasmos de formas diferentes - em geral ele lembra mais um espirro do que algo tão longo e cheio de firulas.

O autoconhecimento é fundamental nesse sentido, inclusive com o auxílio de vibradores. Perceba o que pode fazer com o próprio corpo a sós e o que é um orgasmo de verdade para você, ao invés de atuar com berros e expressões faciais. Durante o sexo, tente dizer quando não estiver rolando de determinada maneira ou simplesmente proponha mudar de posição sexual, adicione um brinquedinho erótico...

Nessas horas, a comunicação pode ser verbal ou corporal. É uma questão de confiança na parceria que está com você, independente de estabilidade e vínculo. Existem sexos casuais mais confiáveis e satisfatórios do que relacionamentos de longo prazo. Também vale sempre se perguntar: “Estou me anulando ou me magoando de alguma forma apenas para que a outra pessoa não precise lidar com a realidade?”. 

Voltar para o blog

Deixe um comentário

Os comentários precisam ser aprovados antes da publicação.