Julia, uma mulher negra de cabelos curtos, está sorrindo para a câmera. Ela usa brincos de argola, uma blusa decotada de manga comprida com estampa de listras e flores.

“Sou uma mulher lésbica com deficiência e mereço gozar!”

Tirem o capacitismo da frente que a estudante de psicologia Julia Aquino vai passar com sua lucidez neste relato sobre sexualidade PCD

Por Julia Aquino 

Uso cadeira de rodas desde os seis anos de idade por causa da Mielomeningocele, uma malformação congênita da coluna vertebral que me impede de andar. Mas sou muito mais que uma pessoa com deficiência (PCD). Sou uma mulher cisgênero lésbica de 24 anos, feminista, estudante de psicologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e influenciadora digital (além do meu  perfil no instagram, idealizei o @militapcd e sou co-fundadora do @re.ver.ter). Já deve ter dado para perceber que levo uma vida bastante ativa, o que inclui o exercício da minha sexualidade.

Se isso causa espanto ou desconforto por aí é porque vivemos em uma sociedade que molda e naturaliza o capacitismo – a discriminação e preconceito contra PCD . No geral, olham pra gente como se não pudéssemos (ou desejássemos) namorar, beijar na boca e muito menos transar. De um lado, o estereótipo de que somos sempre pessoas infantilizadas. De outro, a idealização de “anjos imaculados” – sem sexualidade, interesse por sexo  ou relacionamento amoroso. Essa definitivamente não é a minha vivência pessoal.

Eu reconheci a minha orientação sexual no início da adolescência, por volta de 13 anos. Um ano depois, assumi para a minha mãe que sentia atração por outras garotas e vivi alguns namoros apenas de forma virtual. Afinal, eu era reprimida por ter uma deficiência e pelo capacitismo (cuja compreensão eu desconhecia na época). Tinha receio de sofrer preconceito na vida real porque já havia conhecido tanto o apagamento da minha sexualidade lésbica quanto a aversão de algumas pessoas. 

As experiências “práticas” vieram depois dos 18 anos, quando passei a frequentar os lugares (festas, shows, baladas etc) sem a minha mãe. Tive algumas relações, mas nada sério. Eu continuava virgem. Infelizmente algumas pessoas não sabiam como lidar com a minha deficiência ou então não entendiam direito as minhas limitações e inseguranças quanto ao sexo. Bom, eu também não sabia nomear a opressão que todos esses sentimentos me causavam... A cultura do capacitismo me silenciou e menosprezou muitas vezes. Eu já me sentia inferior a todas as pessoas, especialmente quando me comparava com amigas da mesma idade que estavam tendo experiências sexuais.  

Tudo começou a mudar depois de entrar para a faculdade, uma fase em que também descobri sobre o capacitismo e me aproximei de pessoas (sobretudo mulheres) com deficiência. De repente, as coisas foram ficando diferentes: a forma como eu lidava com o meu corpo ou com quem tivesse interesses sexuais e românticos por mim. Eu já não aceitava mais migalhas de afeto e determinados comportamentos, como ser apenas objeto do fetiche alheio. Foi então que, aos 21 anos, tive a minha primeira relação sexual.

Apesar de ter idealizado muito esse momento, eu diria que a primeira transa foi boa. Mais do que o prazer do ato em si, ela me trouxe uma enorme sensação de liberdade e alívio. A vida inteira acreditei que não era atraente, não seria desejada sexualmente por nenhuma mulher e tampouco faria sexo. Eu achava que não seria digna de ter relações sexuais. E olha que tive uma educação livre de tabus e até aprendi algumas coisas sobre sexo – imagine quem uma pessoa com deficiência que não cresceu em um ambiente assim!

Ao contrário do que essa estrutura social capacitista e corpo-normativa, cisgênero, heterossexual propõe... não existe apenas uma forma (ou a forma certa) de transar e ter prazer. Pessoas fazem sexo para além da penetração da vagina. Ele pode ser praticado de diversas maneiras, inclusive por quem possui limitações físicas e/ou sensoriais. Talvez o orgasmo seja desencadeado pelo beijo no pescoço, a lambida na coxa, o toque na barriga ou em outras partes do corpo. A gente só precisa derrubar mitos e estereótipos.  Pessoas com deficiência merecem gozar. Eu mereço gozar.

 

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