Priscila Siqueira é uma mulher branca com nanismo. Ela tem cabelos curtos na cor preta, usa óculos de grau e está em pé com as mãos na cintura.

“Sou muito fetichizada pela minha deficiência (nanismo)”

Conteudista convidada, Priscila Siqueira explica o que são pessoas devottee - e como a atração sexual por PcDs impacta sua vida pessoal

Por Priscila Siqueira

Atração sexual se refere às pessoas pelas quais sentimos desejo. Isso inclui aparência, comportamentos e padrões sociais pré-estabelecidos sobre o que é bonito e desejável. Pessoas gordas, negras, com deficiência, trans e travestis são frequentemente deixadas de lado - vistas como alguém para “pegar às escondidas”, seja para saciar a curiosidade ou um fetiche. 

Desde o início da adolescência, percebi que esse tipo de coisa faria parte da minha vida. Sou muito fetichizada por conta do meu nanismo. Recebo diversas cantadas que me objetificam e falam abertamente da atração pela minha deficiência – algo bem comum nas redes sociais. Mas, às vezes, é difícil separar o interesse genuíno de pessoas que querem apenas saber como é ficar com alguém como eu. Por exemplo: já tive experiência com um devotee não-assumido. Muitos também não se reconhecem dessa forma... 

Devotees são pessoas sem deficiência que sentem atração sexual exclusivamente (ou quase) pela deficiência de alguém – características ou necessidades. Existem sites e aplicativos semelhantes ao Tinder para que devotees encontrem pessoas com deficiência (PcDs). Não é difícil perceber alguns problemas logo na página inicial.... Nunca tive vontade de conhecer mais a fundo. Todos parecem um tanto tóxicos e cansativos, já que a aparência é supervalorizada e as nossas características viram o principal assunto.

Dentro do guarda-chuva do devoteísmo, estão também as pessoas “pretenders” e “wannabes”. Pretenders fingem ser PcDs, usam muletas, cadeira de rodas ou outras ferramentas em atividades do dia a dia ou locais públicos, até mesmo como fetiche sexual. Wannabes soa como uma música das Spice Girls, mas são pessoas que querem ser PcDs – até tentam provocar mutilações no corpo. [Nota da editora: esses casos podem ser diagnosticados como transtorno parafílico e requerer acompanhamento psiquiátrico].

Ao contrário da atração devottee, o fetiche seria uma curiosidade ou desejo pontual por PcDs. No fim das contas, os dois conceitos acabam nos reduzindo e gerando um impacto negativo na nossa autoestima. Além disso, devido ao capacitismo, pessoas com deficiência geralmente têm sua sexualidade negada dentro de casa e socialmente. Sem acesso a informações importantes sobre saúde e prevenção, por exemplo, tendem a ficar mais vulneráveis a violências sexuais.  

Não cabe a mim determinar que devotees são pessoas mal-intencionadas ou se a atração é genuína. O que me cabe é decidir com quem eu quero me envolver. E essa não é uma relação que eu toparia, devido a todo o meu histórico de desconstrução e a vontade de ter alguém que goste de mim por inteiro.

É essencial ressaltar que nem toda relação de uma PcD com uma pessoa sem deficiência tem ligação com fetiche ou devoteísmo, afinal, podemos nos relacionar com quem quisermos. A visão de que PcD só pode se relacionar com PcD também é uma forma de capacitismo e segregação. Para um relacionamento ser saudável, precisamos que haja diálogo, honestidade e consentimento de ambas as partes.

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