Um casal de idosos está dançando de rosto colado em uma sala. O homem é branco, careca e usa bigode. A mulher é branca de cabelos grisalhos na altura da nuca. Ambos sorriem de olhos fechados.

Sexo na terceira idade: o prazer não envelhece

Mais da metade das pessoas idosas tem vida sexual ativa. Por que o tabu ainda existe?

Por Ana Luiza Fanganiello

A ideia de renunciar à vida sexual à medida que se envelhece tem prazo de validade. Muita gente está (re)descobrindo o prazer na terceira idade e exercitando o desejo apesar de todo o tabu. Em uma pesquisa recente da Universidade de Michigan (EUA), 74% das pessoas idosas disseram que o sexo é fundamental no relacionamento.

No Brasil, um levantamento do Programa de Estudos em Sexualidade (USP) mostrou que 87% dos homens cis e 51% das mulheres cis acima dos 60 anos têm vida sexual ativa. Ou seja, o desconforto geral em falar do assunto não significa que as práticas sexuais tenham cessado... A seguir, você confere a entrevista que psicóloga e sexóloga Ana Luiza Fanganiello concedeu à editora da Luvv, Nathalia Ziemkiewicz.

- Por que persiste a ideia de que as pessoas não se interessam mais por sexo ou masturbação depois de cruzar a fronteira da terceira idade?

ANA – Relacionamos muito a sexualidade ao padrão apresentado pela pornografia, que traz toda uma performance na qual a penetração é o grande foco da transa. E, geralmente após os 50 anos, as pessoas com vulva entram na menopausa (que tende a reduzir a libido e a lubrificação vaginal), enquanto quem tem pênis percebe a perda na potência da ereção (às vezes levando à disfunção erétil). Por causa disso, supõe-se que acaba a vida sexual.

Mas a forma de exercer a sexualidade muda com o passar do tempo, você pode ter outros prazeres e limitações - e precisa se adaptar a eles. Além disso, falar de sexo na terceira idade soa meio “chocante” porque existe uma construção social de “quanto mais idade a pessoa tem, mais casta e pura ela vai se tornando”. Como não existe educação sexual voltada para esse público, diversos mitos se perpetuam e muitas pessoas idosas têm dúvidas e questões íntimas, mas sentem vergonha de falar no assunto e demonstrar fragilidade. São coisas que dificultam muito a vivência da sexualidade nesta fase da vida.

- O envelhecimento é atravessado por mudanças físicas e hormonais, mas também por questões emocionais. Quais são as principais e como elas impactam a sexualidade?

ANA - A pessoa idosa vai recebendo mensagem implícitas ou explícitas de que está se tornando inútil para a sociedade, seja pela aposentaria (não exerce mais a função do trabalho e da produtividade), pela perda de potência física (com o aparecimento ou agravamento de doenças) e emocional (por exemplo, a diminuição das atividades sociais, a vivência do luto por uma parceria etc). É o estigma de que ela está “encostada”, inclusive sexualmente. De forma objetiva, é como se o senso comum decretasse: “Pessoas idosas estão pra morrer, então não precisam ter prazer”.

- De que forma as pessoas 60+ podem se beneficiar do sexo [solo ou com uma parceria]? Algumas estão descobrindo o prazer sexual na terceira idade e isso acaba motivando outras revoluções pessoais...

ANA - O bem-estar sexual é um fator de qualidade de vida, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Pesquisas científicas já mostraram que o orgasmo libera substâncias como endorfinas, serotoninas e ocitocinas – elas melhoram o humor e até reduzem dores crônicas, portanto a pessoa se sente mais feliz. Descobrir, experimentar e se entregar ao prazer sexual faz com que pessoas de qualquer idade reconheçam a própria potência, o que pode reverberar em outras esferas da vida...

- Entre 2014 e 2015, o Brasil registrou aumento de quase 30% nos casos de HIV entre pessoas idosas. Por que a adesão à camisinha é complexa nessa população?

ANA – Essas pessoas não receberam educação sexual e provavelmente não tinham o hábito de usar camisinha na juventude. A sexualidade ainda é um tabu grande para a maioria e não existem campanhas amplas na mídia incentivando o uso de camisinha na terceira idade. O Viagra chegou ao mercado em 1998 para ajudar na dificuldade de ereção e prolongar a vida sexual das pessoas, mas não houve um trabalho de conscientização sobre sexo seguro nessa população.

- Existem cada vez mais produtos no mercado erótico para o chamado “Silver Sex” [sexo grisalho], como hidratantes para secura vaginal ou géis para ajudar a ereção, que podem ser um recurso anterior às medicações. O que você acha disso?

ANA - É importantíssimo pensar na educação sexual dessa turma, desde a abordagem do tema como a prevenção contra Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Também investir na capacitação de profissionais de saúde (especialmente ginecologistas e urologistas) para que perguntem a pacientes 60+ sobre sua sexualidade. Prescrever uma ida ao sex shop seria uma ótima ideia...

*Foto: Pexels / Vlada Karpovich

Voltar para o blog

Deixe um comentário

Os comentários precisam ser aprovados antes da publicação.