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Saiba como os antidepressivos interferem na vida sexual

Medo de efeitos colaterais como baixa libido e disfunção erétil são legítimos, mas medicações modernas têm risco reduzido

Por Marina Zaneti

É difícil pensar quem não ficou (mais) ansioso e/ou depressivo com a pandemia de Covid 19. Em minha clínica de psiquiatria, percebo na prática a explosão de casos. Se o novo coronavírus custou centenas de milhares de vidas, também impactou demais a nossa saúde mental – ela se tornou a moeda mais valiosa. Embora as pessoas estejam desesperadas para se sentirem melhor emocionalmente, elas também se preocupam sobre os possíveis efeitos colaterais do tratamento com antidepressivos em suas vidas sexuais. É legítimo, mas calma: a prescrição e o estudo dessas medicações são bem anteriores à crise sanitária... Temos bastante informação para orientar pacientes e oferecer possibilidades.

Para se ter ideia, o Brasil já possuía o maior número de diagnósticos de ansiedade entre todos os países do mundo. Agora a situação se agravou, óbvio. Um estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) mostrou que a quantidade de pessoas com crises de ansiedade e sintomas de estresse agudo praticamente dobrou entre março e abril do ano passado; também houve um aumento de 90% dos casos de depressão. E, ainda, 80% da população brasileira tornou-se mais ansiosa, de acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) no período de maio a julho de 2020.

Ao buscar ajuda médica, muitas dessas pessoas que estão “implodindo” de angústia acabam sendo atendidas por profissionais que não possuem especialização em psiquiatria – ou atualização a respeito das medicações mais modernas para o tratamento de quadros de ansiedade e depressão. Elas começam a usar os antidepressivos prescritos e aguardam, ansiosamente, o alívio dos sintomas (com o perdão do trocadilho!). De “brinde”, é comum que ganhem os tais efeitos colaterais para a vida sexual e passem a sofrer também por novos motivos...

Mas será que todo remédio antidepressivo causa problemas e disfunções sexuais? Não todos, mas a maioria sim. Essas medicações agem no cérebro, mais especificamente nos receptores serotoninérgicos, reduzindo indiretamente a dopamina – ela é responsável por ativar o circuito de recompensa. Em suma, só sentimos que um orgasmo foi maravilhoso porque a dopamina foi liberada no cérebro.

Menos dopamina como efeito colateral do remédio pode significar menos (ou até zero) libido, excitação e orgasmo. Este último fica mais prejudicado no caso das pessoas com vagina. Não precisa desanimar (mais ainda) porque já existem algumas medicações com pouco ou nenhum impacto na esfera sexual. Por exemplo: fluvoxamina, desvenlafaxina, mirtazapina, bupropiona, duloxetina e vortioxetina. A desvantagem é que, em geral, elas não estão disponíveis na rede pública de saúde e são mais caras nas farmácias. Importante pontuar que, independentemente do uso de medicamentos, o próprio quadro psiquiátrico também interfere no exercício da sexualidade.

Muitas vezes a pessoa já estava com baixa libido ou tinha dificuldades de chegar ao orgasmo, mas só vai lembrar da vida sexual depois que iniciou o tratamento e apresentou melhora dos sintomas da depressão e/ou ansiedade. Então, não adianta culpar apenas o remédio. Quadros clínicos comuns como obesidade, hipertensão, diabetes, sedentarismo, má alimentação, questões psicológicas ou de relacionamento, por si só, já podem atrapalhar a saúde sexual. 

Tratar o(s) quadro(s) de base é fundamental porque o uso de antidepressivos pode ser temporário – e não prolongado. Vale a pena investigar, rever e cuidar dos demais fatores que interferem a sua sexualidade ao invés de simplesmente recusar uma medicação para a saúde mental. Estar bem consigo não é apenas prioridade como também pré-requisito para desfrutar das vivências sexuais.

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