Um homem branco de barba rala abraça por trás um homem negro, que recebe um beijo na orelha e exibe um sorriso largo.

Principais riscos à saúde mental e sexual da população LGBTQIA+

Saiba como o estresse de minoria social e o preconceito internalizado impactam a vida de quem não se encaixa no padrão considerado “normal”

Por Rafael Zeni*

LGBTQIA+ é um movimento político e social que visa o respeito à diversidade, à garantia de direitos e à inclusão. Cada letra representa um grupo que possui vivências individuais e sofrem diferentes tipos de violência pelo simples fato de não se encaixarem no modelo considerado erroneamente como “normal” em uma sociedade com um forte viés heterocisnormativo.

Talvez você não esteja familiarizado com tantos conceitos. Então, primeiro, vamos entender o significado de cada uma das letras que compõem a sigla LGBTQIA+.

L – Lésbicas: mulheres que sentem atração afetiva e/ou sexual por outras mulheres;

G – Gays: homens que sentem atração afetiva e/ou sexual por outros homens;

B – Bissexuais: pessoas que sentem atração afetiva e/ou sexual por pessoas do mesmo gênero ou do gênero oposto;

T – Transgêneros: pessoas que possuem uma identidade de gênero diferente do sexo que lhes foi atribuído no nascimento (exemplo: nasceu com pênis, mas se identifica com o gênero feminino);

Q – Queer: pessoas que não se identificam com as definições de gênero existentes;

I – Interssexual: pessoas que nasceram com características sexuais e/ou genitália que não se encaixam nos padrões típicos (masculino ou feminino);

A – Assexuais: pessoas que não sentem atração sexual por nenhum gênero ou, ainda, sentem atração sexual parcial ou condicionada à atração romântica;

+ - Outras identificações de gênero e orientação sexual.

A Heterocisnormatividade é um termo utilizado para descrever situações em que as variações de orientação sexual e identidade de gênero diferentes da hetero e cisgênero são marginalizadas, ignoradas ou perseguidas por práticas sociais, crenças ou políticas. Tudo aquilo que foge a norma social imposta (o que é ser homem, o que é ser mulher, como ambos devem se comportar etc) é considerado anormal, pecaminoso, ameaçador a ordem e à família, dentre outros absurdos. Se você pertencer a uma “maioria”, não for “diferente”, a sociedade não terá problemas com você.

O ódio ou rejeição às pessoas LGBTQIA+, a LGBTfobia, não apenas coloca o Brasil no rol dos países que mais matam LGBTs no mundo, como também contribui para o desenvolvimento de problemas psicológicos (baixa autoestima, baixa autoconfiança, sentimento de inferioridade) psicopatologias (depressão, ansiedade, compulsões, comportamentos de risco), dificuldades relacionais (violência doméstica, relações abusivas, dificuldades para se apegar) e disfunções sexuais (problemas de ereção, ejaculação rápida, baixa de desejo) nesta população. Tudo isso é causado, principalmente, por dois fatores: o estresse de minoria social e a LGBTfobia internalizada, comumente conhecida como homofobia internalizada.

O estresse de minoria social é especificamente experimentado por grupos subrepresentados, provocado pela vivência em sociedade e pode aumentar a vulnerabilidade das pessoas LGBTQIA+. Já a LGBTfobia internalizada é caracterizada pelo deslocamento da visão social negativa para si mesmo, levando à autodepreciação, fortes conflitos emocionais, baixa autoestima e autoconfiança. Mas é importante salientar que esses sintomas são socialmente provocados, e não inerentes ao fato de a pessoa ser LGBTQIA+.

Os principais fatores de risco específicos das populações LGBTQIA+ são aqueles provocados por contextos sociais (preconceito, violência, rejeição); comportamento de risco em relação ao álcool e outras drogas; maior risco de sofrer violência sexual; alto índices de tentativas de suicídio; dificuldade em assumir a própria orientação sexual; e LGBTfobia internalizada. A qualidade do relacionamento íntimo, o apoio social e os baixos níveis de LGBTfobia internalizada influenciam diretamente na saúde mental, na maior satisfação sexual e na redução de disfunções sexuais.

O exercício da sexualidade é um dos marcadores de qualidade de vida, independentemente da orientação sexual e identidade de gênero. Dessa forma, não se devem negligenciar aqueles e aquelas que estão à margem do padrão imposto. Principalmente quando se apresentam dificuldades e disfunções que podem comprometer o cotidiano e a vida das pessoas. Às pessoas profissionais, cabe considerar a diversidade sexual de forma ampla e respeitosa, dissipando mitos sobre uma “forma correta” do exercício da sexualidade.

É importante ressaltar que existem diretrizes propostas que se preocupam com o atendimento prestado à pessoa LGBTQIA+. Aqui no Brasil temos a POLÍTICA NACIONAL DE SAÚDE INTEGRAL DE LÉSBICAS, GAYS, BISSEXUAIS, TRAVESTIS E TRANSEXUAIS (Ministério da Saúde, 2013). Ela é um divisor de águas para as políticas públicas de saúde no Brasil e um marco histórico de reconhecimento das demandas desta população em condição de vulnerabilidade. É também um documento norteador e que legitima as necessidades e especificidades, em conformidade ao que é proposto e previsto na Constituição Federal e na Carta dos Usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

As diferenças existem, devem ser respeitadas e isso significa serviços iguais para todes ou, ao mesmo tempo, serviços específicos para pessoas com necessidades específicas. Ser um LGBTQIA+ em um país extremamente violento e preconceituoso, definitivamente, deixa marcas profundas e que precisam ser consideradas quando em um acompanhamento em saúde, principalmente em saúde mental e sexual. Às pessoas profissionais, reavaliem suas opiniões e preconceitos, afinal, temos um ser humano à nossa frente, com uma vida, sentimentos, experiências e angústias. A pacientes e clientes LBGTQIA+, é nosso direito um atendimento digno e que respeite nossas características individuais, e que nos definem quem somos.

*Rafael Zeni é homem cis gay, psicólogo Clínico, sexólogo e educador sexual. Palestrante, professor e consultor em saúde mental. Principiante na arte do Podcast: @coletivoser. 

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