Uma mulher ruiva e de cabelos presos está envolta em um véu branco transparente.

Precisamos repensar o conceito de virgindade

Considerar apenas a penetração do pênis na vagina é excludente com outras práticas e orientações sexuais

Por Ana Luiza Fanganiello

Estamos em 2022, mas o atual conceito de virgindade remonta à Idade Média. Embora em decadência, persiste a expectativa de que a mulher cisgênero se mantenha pura e casta para o marido. Em algumas culturas, aliás, o casamento pode ser anulado se não houver o “rompimento do hímen” – eis um mito porque tal membrana pode ter diferentes formatos, muitos não fecham por completo a abertura da vagina, portanto nem sempre há o que romper!

Além disso, a sociedade considera “primeira vez” apenas quando há penetração do pênis na vagina, o que é muito excludente com outras práticas e orientações sexuais. Existe uma desvalorização de tudo que não cabe na caixinha da heteronormatividade*. Por essa lógica, mulheres lésbicas com vida sexual ativa que jamais foram penetradas por um pênis (só por dedos e vibradores) seguem virgens. Jovens que chegam ao orgasmo trocando sexo oral e masturbação também.

Algumas pessoas praticam sexo oral e anal como se fossem preliminares, e não “sexo de verdade”. Elas se seguram em um discurso de pureza porque não houve intercurso do pênis na vagina. É uma questão moralista, religiosa, conservadora. Historicamente a virgindade da mulher cis era a única “garantia” para o homem de filhos legítimos, afinal não existiam os testes de DNA. E a castidade feminina é interessante para o frágil ego masculino: sem experiências sexuais prévias, a mulher não tem como comparar o desempenho do marido...  

Não à toa a “perda da virgindade” foi sendo contadas através de gerações e da mídia (livros, filmes, novelas) como uma experiência ruim, algo doloroso para a pessoa com vagina. É principalmente esse medo socialmente construído que pode fazer com que os músculos da região íntima travem e a penetração não seja prazerosa na primeira vez. Precisamos mudar essa visão negativa, trocar a expressão “perder a virgindade” por “ganhar sexualidade”.

Não se trata de perder pureza, mas ganhar novas experiências. Também é fundamental refletir sobre as questões de gênero nesse conceito de virgindade. Por que geralmente uma mulher cis virgem tem mais valor e um homem cis virgem é ridicularizado? Pais e mães de meninos costumam ouvir comentários do tipo: “Esse vai ser comedor”. O mesmo não acontece quando é uma menina: “Nossa, essa vai ser safada, hein?”. Nenhuma criança deve ser sexualizada, em primeiro lugar.

Mas a forma como tratamos bebês a partir do órgão genital já reflete tanto o machismo quanto o conservadorismo ainda em voga. Desde sempre as mulheres são encaminhadas para esse lugar santificado e não para usufruir da própria sexualidade. Me surpreende, aliás, rodas de Sagrado Feminino (rituais de empoderamento) difundindo que “cada pênis deixa uma marca no útero”. O que se pretende dizer com isso? Que mulheres cis com muitas parcerias sexuais são mais desgastadas? Se for isso, bem, realmente voltamos à Idade Média.

Voltar para o blog

Deixe um comentário

Os comentários precisam ser aprovados antes da publicação.