Um homem branco de barba está de olhos fechados, com o peito desnudo e os braços para cima.

Transa mudo, goza calado: por que muitos homens não gemem no sexo?

O psicólogo e sexólogo Rafael Zeni discute mais um tabu da masculinidade (frágil)

Por Rafael Zeni

Se sexo fosse um filme, o gemido seria um dos protagonistas. Supervalorizado em produções pornô, ele acabou se tornando um dos principais indicadores de prazer e/ou dor no imaginário cultural. Mas quem geme mais alto nem sempre tem o orgasmo mais intenso (se é que tem!) e quem goza em silêncio pode ter muita satisfação sexual. Há uma expectativa social sobre como cada gênero deve se comportar na cama – e o gemido ainda é visto como uma demonstração feminina. Esse é apenas um dos motivos para tantos homens cerrarem os lábios quando o prazer quer transbordar pela boca...

O gemido é uma forma de comunicação do corpo. Os estímulos eróticos trocados durante o ato sexual provocam reações físicas, como ereção ou lubrificação, assim como aumento da frequência cardíaca e respiratória. Isso faz com que homens e mulheres se sintam ofegantes e a própria sensação de prazer pode ser vocalizada. Embora não seja uma regra ao transar (algumas pessoas ficarão quietinhas mesmo), é algo bastante comum. Mais do que isso, existe um forte apelo sexual no gemido: ele pode excitar a sua parceria; dar um retorno de como você está se sentindo no sexo; aumentar o seu prazer; ajudar você a atingir o orgasmo; tornar você mais aberto.

Por que, então, é tão comum comum que os homens se abstenham de gemer no sexo?

  1. Concentração: Adiar o orgasmo/a ejaculação. Para muitos homens é mais difícil se concentrar quando se está gemendo.
  2. Autoconsciência: Gemer não é um ato tão simples quanto parece. Algumas pessoas são muito sensíveis em relação aos sons que fazem durante o sexo e temem que os gemidos não soem sexy.
  3. Norma masculina: Muitos homens entendem o gemido como sinal de fragilidade, perda de controle, uma abertura para receber prazer da parceria. Repare que, mesmo nos filmes pornôs, raramente ouvimos os atores gemerem...
  4. Falta de vivência: Algumas pessoas que nunca se permitiram gemer durante o ato sexual podem achar difícil começar.
  5. Medo do espontâneo: Receio de como a parceria sexual vai receber o seu gemido. Vale dizer que, para muitas pessoas, vocalizações intensificam a experiência sexual.

Masculinidade tóxica

A ausência ou escassez de gemidos masculinos no sexo é uma questão cultural ligada ao lugar do homem na sociedade patriarcal, ao machismo e à masculinidade tóxica. Gemer é considerado um “comportamento feminino”, portanto ele entende que vai perder potência e virilidade se o fizer. Essa postura denuncia a dificuldade de mostrar vulnerabilidade, afinal aprende-se que “homem não chora”, “não nega fogo” e... “não geme”.

Um homem não se torna gay porque geme de prazer no sexo, da mesma que não deixa de ser hétero porque gosta de estímulo na próstata. Vocalizações sexuais espontâneas não são indicadores de orientação sexual e identidade de gênero. Aliás, é interessante como a lógica cisheteronormativa acaba sendo reproduzida inclusive em algumas relações homossexuais, quando há a ideia de que alguém ocupará “o papel da mulher”. Por exemplo: “p

Além disso, a pornografia estimula comportamentos sexistas e reforça esses papéis de gênero, incumbindo às mulheres a tarefa de expressar o prazer com caras, bocas e voz. O gemido delas nutre a dominação masculina. Não cabe ao homem gemer, mas fazer gemer. Não é coincidência que muitos homens reprimam suas expressões de desejo, excitação e orgasmo durante o sexo. Eles se controlam, se seguram, ficam emudecidos.

A espontaneidade deveria ganhar espaço no dia a dia dos homens, com liberdade para vivenciar e expressar livremente as sensações – ao invés de pensá-las ou programá-las. "Fazer barulho, contrair o corpo, mostrar que está gostando é sempre mais interessante, porque a espontaneidade caminha ao lado da criatividade, e ambas são fatores estimulantes no sexo. O homem ainda deve estar atento às possibilidades do prazer do corpo, com regiões de prazer não habituais", disse o psiquiatra e sexólogo Saulo Ciasca em entrevista ao UOL.

Como incentivar o boy a gemer no sexo

  1. O bom e velho diálogo: Que tal ser objetivo e direto? O não você já tem!
  2. Faça com que ele se sinta confortável com isso. Dê tempo ao tempo.
  3. Crie um espaço seguro para ele começar a gemer. Ofereça um ambiente aberto e sem julgamentos para ele se expressar.
  4. Lembre-se de que pequenos passos também são passos. Se não funcionar como esperado, você sempre pode tentar novamente.
  5. Pratique a dirty-talk (conversa safadinha). Uma voz mais sexy e palavras de cunho sexual podem estimular o seu parceiro a se soltar.
  6. Amplie o repertório sexual. Há uma variedade de coisas que vocês podem fazer, como usar brinquedos, tentar novas posições ou explorar novas fantasias.

Precisamos falar mais sobre sexo com as nossas parcerias (mesmo casuais), assim como fazemos com amigues na mesa de bar. O diálogo aberto propicia relações com menos pudor e mais satisfação sexual mútua. Ele pode render encontros gostosos, sem a necessidade de se inibir ou fingir que gostou de algo. Porque calado, gritando ou gemendo... o prazer deveria ser sempre o verdadeiro protagonista.

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