Um homem negro de cabelos curtos e barba está sentado em um sofá. Ele tem uma expressão pensativa e apoia a mão esquerda na cabeça.

Por que homens jovens têm problemas de ereção?

Descubra quais são as causas físicas e psicológicas da disfunção erétil

Por Eduardo Yabusaki

A disfunção erétil (antigamente chamada de impotência sexual) aflige um número significativo de pessoas com pênis, inclusive jovens, abalando sua autoestima e seu relacionamento amoroso. Apesar de existirem diversas técnicas, remédios e alternativas de tratamento para problemas de ereção, muitos homens cisgênero sofrem calados durante anos e não buscam ajuda profissional. Por que essa disfunção sexual ainda hoje provoca tamanho constrangimento? E de onde vem esse medo de “falhar” no sexo?

Quase metade (46%) dos homens brasileiros cisgênero enfrentam algum tipo de dificuldade em sua ereção, de acordo com o , conduzido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). A média de idade dos participantes da pesquisa era de 37 anos. Já o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), referência mundial para questões de saúde mental e sexualidade, aponta que em torno de 13% a 21% dos homens cis entre 40 e 80 anos têm disfunção erétil. Outros estudos indicam que, entre 60 e 70 anos, metade se depara com esta disfunção sexual.

É natural que a incidência aumente com o envelhecimento: as pessoas tendem a adquirir doenças crônicas e/ou sistêmicas que prejudicam a ereção peniana – quanto a sua qualidade ou funcionalidade (conseguir obter e manter na relação sexual). Entre as causas físicas mais comuns da disfunção erétil estão doenças cardiovasculares (como hipertensão), endocrinológicas (diabetes, por exemplo) e neurológicas (AVC, esclerose etc). O uso de medicações no tratamento dessas condições de saúde também pode interferir na resposta sexual da pessoa com pênis, da mesma forma que o uso/abuso de drogas ilícitas (como cocaína) ou lícitas (álcool, cigarro, alguns antidepressivos, entre outros).

No entanto, os consultórios médicos e psicológicos recebem cada vez mais pacientes jovens com queixa de disfunção erétil, cuja causa está ligada a fatores sociais e emocionais. De um lado, há o consumo desenfreado de pornografia, que cria e reforça expectativas irreais sobre o desempenho sexual. Do outro, falta educação sexual de qualidade que ofereça informações adequadas para o desenvolvimento amplo e saudável da sexualidade. Persistem ideias absolutamente equivocadas sobre masculinidade, associando-a à quantidade de parcerias, relações sexuais ou ereção infalível. Essa pressão social pelo “bom funcionamento” do pênis gera uma autocobrança nociva, atrapalha as vivências sexuais, leva a conflitos no relacionamento. Ela dificulta a construção da intimidade porque, muitas vezes, a preocupação está na performance.

Além disso, a disfunção erétil pode ser desencadeada por questões psicológicas que envolvem desde o atual contexto de vida (se está com depressão, problemas financeiros, sente culpa por uma infidelidade etc) até a infância (o que se aprendeu sobre masculinidade, por exemplo) e adolescência (como foram as primeiras vivências sexuais). A atividade sexual humana tem mais a ver com aprendizado do que instinto. Todas as experiências, boas e ruins, influenciam a construção interna da nossa sexualidade. Embora sejamos movidos por impulsos de desejo e interesse, precisamos passar por um complexo processo de fixação dos estímulos agradáveis e prazerosos. Ou seja, não basta ter tesão se o que vem depois não for positivo: o que nos nutre e leva à satisfação sexual é o prazer com que vivemos essa intimidade erótica.

É comum que um episódio circunstancial de perda de ereção já represente uma experiência dolorosa (especialmente no caso dos homens cis), por vezes se transformando em um trauma. A maioria acredita em mitos culturais machistas e não tem a compreensão verdadeira de que isso pode acontecer com qualquer pessoa com pênis por inúmeros motivos - ambiente, contexto, parceria sexual... Precisamos superar crenças antigas como de que “o homem tem que comparecer” e “dar conta do recado”. Do contrário, os episódios podem se repetir com frequência, configurando a disfunção erétil. 

O sexo, então, deixa de ser um momento agradável e prazeroso para se tornar fonte de angústia e estresse. Trata-se da “ansiedade de desempenho” ou “antecipação ao fracasso”, quando a pessoa cria uma condição emocional que é desfavorável a si mesma (espécie de boicote). Em seu dia a dia, ela rumina pensamentos e sentimentos obssessivos: “Será que voltar a ter uma ereção ou passar vergonha de novo? Conseguirei dar prazer para a minha parceria? O que ela(e) está pensando sobre mim?”. Não surpreende que a disfunção erétil, muitas vezes, seja seguida pela diminuição do desejo e da frequência sexual... A atividade sexual passa a ser evitada por “medo de falhar”.

Procurar ajuda profissional especializada em sexualidade para receber uma avaliação e o tratamento mais adequado para a disfunção erétil é fundamental – de acordo com a disponibilidade emocional e financeira da pessoa, óbvio. Pode envolver apenas sessões de terapia sexual ou incluir remédios, mudança de hábitos, implante de prótese por meio de cirurgia... O envolvimento da parceria amorosa nesse processo acelera os resultados, desde que ela seja colaborativa e acolhedora – jamais uma figura crítica que coloca ainda mais pressão na situação. 

De maneira geral, as pessoas com pênis devem entender que 1) para ter uma vida sexual satisfatória é importante cuidar da saúde física e mental; 2) diante de uma dificuldade sexual como disfunção erétil, buscar ajuda profissional é muito mais eficaz do que se deixar consumir por pensamentos estressantes; 3) sexualidade envolve exploração de estímulos sensoriais e fantasias; 4) é mais produtivo focar nas vivências e preferências individuais, ao invés de se comparar com expectativas culturais irreais sobre sexo.

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