Uma mulher está sentada no chão abraçando os joelhos e com expressão triste. Maquiada, ela veste apenas uma meia calça arrastão e um blazer vermelho.

População LGBTQIA+ vivia isolamento antes da pandemia – e piorou!

Pesquisa com mais de 10 mil pessoas revela as maiores dificuldades no atual contexto, como solidão e problemas de convívio familiar

Por Rafael Zeni

Há mais de um ano no Brasil, a pandemia de Covid 19 impõe diversos desafios a todas as pessoas. Mas pesquisas recentes apontam que o isolamento social decretado pela crise sanitária tem repercussão ainda mais aguda para a população LGBTQIA+ (sigla para lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais, queer, intersexuais, assexuais e mais). Por passarem mais tempo confinadas com familiares que não aceitam determinada identidade de gênero ou orientação sexual, essas pessoas são vítimas de maus-tratos e violência doméstica, por exemplo.

A pesquisa Diagnóstico LGBT+ na pandemia, conduzida pelo Coletivo #VoteLGBT em parceria com a Box1824, ouviu mais de 10 mil pessoas LGBT+ para entender os impactos do contexto atual em suas vidas. Os resultados são alarmantes. Para 42%, a maior dificuldade durante o isolamento social / quarentena envolve questões de saúde mental (ansiedade, depressão, crise de pânico). As novas regras (distanciamento das pessoas, uso de máscaras faciais etc) são outro importante desafio 16%. Em seguida, vêm a solidão (11%), o convívio familiar (10,91%) e a falta de dinheiro (10,62%).   

Um olhar mais profundo sobre o mesmo levantamento mostra que 60% das pessoas LGBT+ com idades entre 45 e 54 anos se sentem sozinhas; o percentual alcança 80% acima dos 55 anos. Quanto às dificuldades financeiras, 21% das pessoas entrevistadas está desempregada e quase metade tiveram suas atividades profissionais paralisadas pela pandemia. Aqui vale lembrar que muitas travestis e pessoas trans possuem empregos informais ou relacionados à prostituição.

O termo LGBTQIA+ abrange a orientação sexual e a identidade de gênero de mais de 11 grupos identitários. Portanto, as pessoas que integram essa população vivenciam diferentes graus de vulnerabilidade e desigualdade. Exemplo disso é a expectativa de vida de uma travesti no Brasil. Enquanto ela vive cerca de 30 anos, uma pessoa cisgênero chega aos 74 anos. Mas há muito em comum: todas sofrem exclusão social, preconceito, violência e perseguição por aspectos de sua sexualidade.

O isolamento não é uma novidade para as pessoas LGBTQIA+. Antes da pandemia de Covid 19, essa população já era muito mais vulnerável aos transtornos de saúde mental por causa do estresse de minoria social e da lgbtfobia. O cenário foi agravado principalmente por dois fatores. Primeiro pela “fadiga pandêmica”, denominação da Organização Mundial da Saúde para o esgotamento causado pela hipervigilância e medo do novo coronavírus. Esse cansaço físico e emocional específicos do contexto atual agravam problemas de saúde mental como depressão, ansiedade, compulsões e ideação suicida.

Em segundo lugar, porque as atuais circunstâncias impedem ou dificultam a proteção e o apoio às pessoas LGBTQIA+ por parte de pares e respostas comunitárias eficazes. Na falta de alternativas, um número considerável acaba voltando para a casa de familiares. Ou seja, a pandemia sanitária somada a uma terrível crise econômica, contribuiu de forma perversa para negligenciar ainda mais quem passou a vida inteira à margem da sociedade. Infelizmente a exclusão e a violência já estavam por aqui antes da chegada do novo coronavírus.

É responsabilidade do Estado promover políticas públicas emergenciais para garantir a segurança e a saúde da população LGBTQIA+, especialmente neste momento. E haja resiliência...

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