Duas mulheres brancas e um homem negro brindam com copos de cerveja. No centro da imagem, um cadeirante oriental e com traqueostomia sorri para a cena.

Pessoas com deficiência têm direito de explorar a própria sexualidade

Apesar do tabu, esses corpos também são dignos de afeto, passíveis de desejos e possibilidades de prazer

Por Heitor Kaleo

A sexualidade pode ser entendida como um espectro com várias formas, nuances e possibilidades, além de ser fluida em suas performances. Nesse sentido, ela não é um conceito muito diferente das deficiências, que possuem um universo de singularidades frente à existência de uma diversidade corporal. Ambas também são permeadas por tabus e preconceitos. Imagine, então, refletir sobre a vida sexual das pessoas com deficiência física e/ou intelectual... Mas corpos fora do padrão social não apenas têm direito sexual, como são capazes de dar e sentir muito prazer.

No dicionário, a palavra “deficiência” significa “medicina: insuficiência ou ausência de funcionamento de um órgão; psiquiatria: insuficiência de funcionamento psíquico ou intelectual”. Saúde, por sua vez, é descrita como um “bom estado físico”. Infelizmente essas definições corroboram estigmas sobre as pessoas com deficiência (PCD) e dificultam o acesso à saúde integral – como os direitos sexuais e reprodutivos, o combate a formas de assédio e abuso etc.

Pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a saúde não pode ser entendida simplesmente como a ausência de doenças e/ou enfermidades. Ela é um estado completo de bem-estar físico, mental e social – incluindo a perspectiva sexual. Acontece que corpos com deficiência acabam ficando à margem da sociedade, como se não merecessem atenção ou valorização. São corpos pré-julgados incapazes de produzir e reproduzir.

Primeiro, porque apenas o corpo que se encaixa no padrão de beleza e possui determinada capacidade funcional (forte, resistente e “completo”) é considerado atraente. Nesse sentido, descaracteriza pessoas com deficiência e apaga sua diversidade funcional. Em segundo lugar, há um estigma sobre o desenvolvimento sexual de pessoas com deficiência, ainda atrelada à ideia de uma incapacidade reprodutiva e/ou uma ansiedade social sobre como serão seus descendentes.

A visão social a respeito da sexualidade PCD tende a seguir caminhos opostos, mas igualmente nocivos. De um lado, pessoas com deficiência são colocadas em um extremo de infantilização, como se não lhes fosse permitido o desenvolvimento da sexualidade e o conhecimento dos próprios desejos, do corpo e do prazer. É o caso de cadeirantes. De outro lado, existe a hipersexualização: pessoas com Síndrome de Down, por exemplo, são (erroneamente) tidas como incapazes de controlar sua própria sexualidade. De um modo geral, pessoas com deficiência são estigmatizadas e  fetichizadas, reduzidas a partir de sua diversidade funcional.

Toda pessoa deve ter o direito sexual respeitado, seja para desenvolver sua sexualidade e se beneficiar com descobertas através de experiências consentidas ou mesmo para abdicá-la (no caso de pessoas assexuais, por exemplo). Mas pessoas com deficiências ainda precisam reivindicar seus direitos de obter e dar prazer, satisfazer fantasias suas e externas e gozar.

A ideia de sexo deve ser ampliada para diferentes corpos e desejos. Corpos com deficiência também são dignos de afetos, passíveis de desejos e repletos de possibilidades para além de sua deficiência. Sexo não envolve apenas penetração e muito menos se limita a órgãos genitais – sexo é prazer, erotismo, sensualidade, respeito e apego. Ele faz parte da vida, da energia e da liberdade de todos os corpos.

 

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