Uma mulher trans branca, de cabelos curtos cacheados, está sentada em um sofá com os cotovelos apoiados e o olhar perdido.

“Você é operada?”

Jamais pergunte isso a uma mulher trans que você mal conhece – a não ser que haja interesse ou envolvimento sexual

Por Márcia Rocha

É comum que mulheres trans como eu se deparem com um questionamento, no mínimo, estranho: “Você é operada?”. Uma pergunta íntima como essa não deve ser feita por alguém que acabamos de conhecer. Além de constrangedora, ela nos causa uma reação psíquica: inevitavelmente pensamos qual o interesse naquela informação. Imaginem se perguntássemos a um homem ao qual fomos recém-apresentadas se ele é operado de fimose, a uma menina se ela é virgem, ou mesmo a qualquer pessoa se já fez alguma cirurgia íntima...

Ter se submetido à cirurgia de redesignação sexual (erroneamente chamada de “mudança de sexo”) faz pouca diferença na vida de uma pessoa trans em relação ao resto do mundo. Ela deve ser feita por quem realmente a deseja e precisa disso para se sentir bem com o próprio corpo – mas nunca para agradar outras pessoas. Conheci quem operou acreditando que a família e a sociedade aceitariam melhor sua condição. Ledo engano: ao chegar na casa da mãe com a cirurgia feita no exterior e documentos retificados em nome e sexo, bateram-lhe a porta na cara.

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Certa vez estava com minha amiga Maitê Schneider em uma casa noturna e percebi que um rapaz que ela paquerava me olhava estranhamente, com preconceito. Ela é bem mais “passável” do que eu [parece uma mulher cisgênero] e eles estavam conversando animadamente, depois se beijaram.

No final da noite, avisei-a para ter cuidado: se o rapaz havia sido transfóbico comigo, seria com ela também, independentemente de ser operada. No dia seguinte, Maitê recebeu uma mensagem agressiva do sujeito, que havia fuçado suas redes sociais e agora dizia que ela o “tinha feito beijar um homem”!

Uma cirurgia íntima não é para as outras pessoas, apenas para você mesma e só quando realmente necessário por uma sensação íntima de inadequação. Me considero travesti por não ter essa disforia com meu corpo e me sentir perfeitamente plena como sou: mulher, com peito, pênis e lésbica.

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Em outra ocasião, eu estava na balada lésbica The L Club e uma garota me perguntou se eu era lésbica mesmo sendo travesti. Eu disse que sim. Então ela quis saber se eu era operada. Eu disse que não. “Mas funciona?”, insistiu. “Sim!”, respondi olhando em seus olhos. Ela ruborizou, ficou completamente sem graça e disse: “Nossa, você é a mulher perfeita!”.

Achei muita graça e hoje penso que realmente há gosto para todos os seres humanos, sejam eles como forem. Diversidade!

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