Posicionada ao lado de uma placa luminosa, uma mulher negra de cabelos curtinhos e descoloridos está encarando a câmera.

Por que você não deveria “dar” para ninguém

Já se deu conta de como essa expressão é machista?

Por Ana Luiza Fanganiello

“Vou dar para você hoje”. “Deu para a rua inteira no passado”. É muito comum ouvirmos a expressão “dar” no contexto sexual. Talvez você também já tenha recorrido a ela sem perceber seu caráter machista. Geralmente é a mulher quem “dá” para um homem – o inverso até soa estranho, né? A não ser que estejamos falando de um casal homoafetivo. Nesse caso, quem “dá” recebe o rótulo de “passivo” (meu amigo Rafael Zeni escreveu aqui um ótimo texto sobre isso).

*Leia mais: Você usa o sexo como moeda de troca?

Repare na semântica do verbo: precisamos refletir sobre a desigualdade que ela indica. Presumimos que uma pessoa está em posição inferior (dando) e apenas proporciona prazer à outra (recebendo). Ou seja, existe um movimento unilateral, não há troca. A mulher simbólica sempre proporciona, mas nunca tem prazer...

Muitas vezes a gente não se dá conta de como expressões do tipo “dar” são opressoras e foram incorporadas ao nosso vocabulário. Sexo saudável envolve prazer mútuo. E você pode se excitar muito enquanto pratica algo que teoricamente seria para satisfazer a sua parceria (sexo oral, por exemplo).

A grande questão é que a sexualidade feminina sofre repressão desde sempre e desde cedo. A mulher não conhece o próprio corpo, não se masturba, não pode “perder a virgindade” antes do casamento, muito menos ter fantasias ou diversas parcerias sexuais.

*Leia mais: Precisamos repensar o conceito de virgindade

Taxar reflexões como essa a “mimimi” ou “coisa de feminista militante” – algo frequente - é um comportamento típico de pessoas privilegiadas, que nunca foram reprimidas e sempre puderam explorar a própria sexualidade. Do alto de todos os seus direitos sexuais, consideram legítimo minimizar a dor alheia. Aí já “deu” mesmo, né?

Foto: Unsplash /Tyler Nix

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