Descrição: Um celular está sobre a cama, parcialmente coberto por uma colcha. A tela traz a imagem de uma mulher gemendo.

Os impactos da pornografia na nossa vida sexual

Não é só um estímulo para a masturbação: estamos falando de educação sexual, performance, violência contra as mulheres e muito mais.

Por Theo Alarcon

No início da pandemia de Covid 19, um dos grandes sites de pornografia do mundo liberou seu conteúdo pago durante um mês para todas as pessoas – não que sejam “legais”, mas entendem de marketing. O tédio do isolamento social aumentou a frequência da masturbação e a degustação do acesso premium certamente rendeu novos assinantes meses depois. As pesquisas vêm se debruçando sobre como o pornô atua no cérebro e o vicia, assim como na formação das nossas fantasias e preferências sexuais. Afinal, nas últimas décadas, ele foi a principal (senão a única) educação sexual para a maioria de nós.

A palavra pornografia deriva do grego pornographos, que é a junção de porne (prostituta) e graphein (escrita), e pode ser traduzida como “escrito sobre as prostitutas”. O significado do termo sofreu interferência à medida em que a vivência da sexualidade foi sendo compreendida pelas sociedades. Hoje reconhecemos como pornográfica toda representação do comportamento erótico que tenha a intenção de causar excitação sexual, seja através de fotos, vídeos, escritas ou áudios.

Imagens com a finalidade de descrever o desejo sexual ou estimular sexualmente existem desde as esculturas eróticas datadas dos tempos remotos até as primeiras revelações de corpos nus ou seminus em poses sensuais nas bancas de revistas. Mas, com a chegada da internet, tudo ficou à distância de um clique, inclusive a pornografia. O mercado de produção desse tipo de conteúdo cresceu muito e a facilidade de acessá-lo trouxe questões importantes – por exemplo, a frequência indiscriminada das buscas e o fato de que o primeiro contato com o pornô se dá cada vez mais cedo (ainda na infância).

Consequências negativas

É especialmente preocupante quando entendemos que a pornografia pode ser a única educação sexual que muitas pessoas recebem. Esse aprendizado se baseia em um modelo de performance sexual capaz de formar expectativas irreais sobre aparência, comportamento e desempenho. Atores e atrizes pornôs são selecionados de acordo com determinado padrão de beleza, estão interpretando um sexo ficcional, cujas cenas também passam por um processo de edição. Essas narrativas geralmente incluem hiper sexualização dos corpos marcados como femininos, papéis desiguais de gênero, violência e abuso sexual contra mulheres (principalmente negras).

Outro possível impacto negativo da pornografia é o de dessensibilizar o cérebro para os demais estímulos sexuais: ele se acostuma a não fazer nada além de se deixar influenciar por imagens que a pessoa sequer precisou criar. Ou seja, talvez a sua própria imaginação ou as carícias da parceria não sejam mais suficientes para provocar excitação. É importante observar com atenção os casos em que há dificuldade de formar e manter vínculos afetivos ou de obter satisfação com o sexo real.

Estudos recentes também apontam como o excesso de pornografia interfere no funcionamento cerebral de pessoas jovens e adultas. A excitação sexual movida por ela parece com aquela produzida durante a masturbação, mas as fantasias são sustentadas especialmente pela variedade de conteúdos eróticos que agem no Sistema de Recompensa e no Sistema Límbico através da dopamina (neurotransmissor responsável pela sensação de prazer). Alterações nessa região podem diminuir a sensibilidade e aumentar a necessidade de estímulo para alcançar um nível satisfatório de prazer.

Especialistas defendem que o cérebro de um viciado em pornografia desempenha idênticas atividades neurológicas de usuários viciados em álcool e outras drogas – afinal, as áreas cerebrais que reagem a essas substâncias são as mesmas da excitação sexual e do orgasmo. Portanto, mais uma consequência de seu consumo excessivo: ao desestabilizar o sistema de recompensa cerebral, ela pode causar disfunções sexuais como baixa libido, ejaculação retardada, disfunção erétil, entre outras. Então como neutralizar a interferência negativa do pornô?

Alternativas possíveis

Um bom começo é evitar o consumo excessivo e os conteúdos em que a opressão está evidente. As produções pornôs tradicionais e de fácil acesso são feitas exclusivamente para o prazer do homem cisgênero. Além de reforçarem a estrutura machista e sexista, categorizam pessoas fora do padrão branco, magro e heterossexual. Ou seja, naturalizam que todos os outros corpos sejam fetichizados, subjugados e vistos como exóticos não apenas no sexo, mas também socialmente (o que é absurdo). Produções de diretoras como Érika Lust, chamadas de “pornôs feministas”, enfatizam corpos reais e prazer mútuo.

Já o vício em pornografia afeta diretamente as atividades cotidianas da pessoa, muitas vezes prejudicando relacionamentos afetivos e produtividade profissional. É uma busca obsessiva pelo prazer em visualizar imagens eróticas e se masturbar. Essa dependência física e emocional que traz danos à saúde requer ajuda psicológica, como a terapia sexual e consultas em psiquiatria. Para complementar o tratamento, vale procurar nas redes sociais por grupos de pessoas que compartilham do mesmo problema, trocam relatos, passam a reconhecer e eliminar seus gatilhos para superar a condição.

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