Uma mulher negra com expressão triste e interferência artística que simula lágrimas com tinta amarela.

Opressão de gênero: por que mulheres precisam lutar por respeito?

Advogada, educadora sexual e travesti reflete sobre o tema a partir de uma experiência pessoal de assédio

Por Márcia Rocha

Eram umas três horas da manhã e estacionei o carro do outro lado do Largo do Arouche. Voltávamos da balada, eu e minha ex-esposa, usando salto alto, vestidos justos e curtos, maquiadas. Estava escuro e deserto, mas até o nosso prédio eram apenas uns cinquenta metros. Atravessávamos a rua quando três rapazes na outra esquina nos viram, gritaram “Olha!” e correram em nossa direção. Chegamos apressadas ao portão, rapidamente aberto pelo porteiro, antes que eles conseguissem nos alcançar. Ainda assim, ouvimos os risos e falas dos assanhados que tentavam ganhar a nossa atenção. Não eram abusadores, afinal, mas foi a primeira vez na vida em que me senti vulnerável por ser mulher.

É muito comum constatarmos a “culpabilização da vítima” por meio de frases como “Quem mandou estar naquele lugar, àquela hora e com aquela roupa?”. Elas aparecem até em sentenças judiciais, textos que fazem parte da minha rotina como advogada. Por ter ocultado minha condição de pessoa transgênera desde a infância, sendo então socializada como homem cis, jamais havia experimentado a sensação de vulnerabilidade que mulheres experimentam unicamente por serem mulheres. Como homem, eu poderia estar em qualquer lugar, a qualquer hora, com qualquer roupa e jamais estaria vulnerável a um assédio - no máximo seria assaltado.

Os valores de gênero, socialmente construídos ao longo do tempo em grande parte do planeta, objetificaram o corpo da mulher, dividindo-os entre procriadores ou fornecedores de prazer. Historicamente, as mulheres não foram consideradas como líderes, produtoras, guerreiras ou sacerdotisas, afastadas de âmbitos de decisão ou poder. Nascida em 1964, esses valores permeavam meu universo. Nossas avós e muitas de nossas mães foram criadas somente para se casarem (e virgens). Mulheres defloradas eram vistas como “perdidas”, a ponto de algumas famílias as submeterem a cirurgias para reconstrução do hímen [fina membrana na entrada da vagina] na tentativa de desfazer a mácula experimentada pela garota, ignorando que a experiência sexual em si não poderia ser apagada.

 A objetificação do corpo feminino ignora o ser humano ali presente, sua autonomia de vontade, sua liberdade de escolhas, seu “eu”. A mulher passa a ser um produto em uma sociedade masculina que legisla sobre seu corpo, determina seu uso, seu local de existência, suas atribuições. Quando o corpo da mulher não tem a finalidade reprodutiva (“mulher pra casar”), passa a ter a finalidade de dar prazer: seja o prazer visualmente explorado na mídia (propagandas, filmes, pornografia etc.) como o do prazer físico propriamente.

O advento da pílula anticoncepcional, do divórcio e da Constituição de 1988 vêm proporcionando maior liberdade às mulheres. Aos poucos, seus corpos se tornam menos objetificados e a mulher recebe maior autonomia sobre ele. Mas isso não acontece sem resistências, principalmente vindas de alguns grupos religiosos e setores mais “conservadores” da sociedade.

Alguns países ainda permitem que meninas tenham seus clitóris extirpados por motivos aparentemente religiosos, com o objetivo de “preservar a pureza” da jovem - como se o prazer sexual fosse uma mácula perpétua em sua alma. A culpa, a ignorância e a opressão sexual existentes são tamanhas mesmo em países como o Brasil. Uma pesquisa realizada há alguns anos por aqui constatou que 30% das mulheres cisgênero entrevistadas jamais tinham tido um orgasmo. Não à toa, certa vez ouvi de uma que “o prazer sexual, com absoluta certeza, é coisa de homem”.

Em uma sociedade na qual os homens detêm todo e qualquer poder, os corpos objetificados das mulheres são sagrados para a procriação. Do contrário, são mercadorias ou propriedades. Em qualquer dos casos, é sempre um homem quem determina seu destino - o padre, o pai, o marido ou o cafetão. A posse do corpo feminino não leva em consideração o íntimo da mulher, seus desejos, sua vontade. Ainda hoje, por mais absurdo que pareça, o argumento “matei por amor” é fala corriqueira em casos de feminicídio. Aliás, até muito recentemente, a “legítima defesa da honra” era alegação para isentar maridos traídos de qualquer punibilidade por homicídios.

Se Freud afirmou que “anatomia é destino”, ignorou o quanto ele próprio participava dessa questionável verdade ao fazê-lo. Sexo biológico deixará de ser destino quando os valores de gênero, a ele atribuídos por nossa sociedade, forem revistos e compreendermos que dentro de um corpo existe uma pessoa autônoma, sensível, humana.

Voltar para o blog

Deixe um comentário

Os comentários precisam ser aprovados antes da publicação.