O diabo veste azul: entenda o que é masculinidade tóxica

O diabo veste azul: entenda o que é masculinidade tóxica

Conjunto de comportamentos estereotipados é prejudicial até para os próprios homens

Por Rafael Zeni

A masculinidade tóxica é um conjunto de valores, ideias e características que determinam comportamentos esperados de pessoas do gênero masculino. Ela reforça estereótipos como o de que “homem de verdade” jamais “leva desaforo para casa”. Embora (ainda) seja incentivada culturalmente, traz consequências nocivas para toda a sociedade, incluindo os homens. Essa concepção de masculinidade promove a desvalorização das mulheres, a homofobia, a violência gratuita, a negligência em relação à própria saúde, entre outras coisas.

Você já parou para pensar quais são os valores masculinos “tradicionais”, aqueles perpetuados ao longo de séculos? No geral, eles enaltecem a força física e reprimem as emoções (“sinal de fraqueza”). Tidos como naturais e instintivos, esses valores não passam de construção social: os meninos são educados para agir desta ou daquela forma (como engolir o choro, gostar de futebol e ser garanhão) tanto dentro quanto fora de casa. Aqueles que não exibem o suficiente dessa “virilidade” acabam ridicularizados, agredidos, violentados...

Alguns exemplos de características da masculinidade tóxica incluem:

  • Tendência ou hipervalorização da violência
  • Hiperssexualização (“não se contém”, “não nega sexo”, “não falha” etc)
  • Necessidade de domínio e controle (“deve ser o provedor da casa” etc)
  • Hipercompetitividade
  • Indiferença, apatia e repressão das emoções
  • Baixa empatia e sensibilidade em relação às pessoas
  • Isolamento social (autossuficiência)
  • Machismo e sexismo
  • LGBTfobia

A crença popular de que “os homens são assim mesmo” reforça comportamentos descuidados, agressivos e prejudiciais que são cobrados dos homens desde a infância. A Organização Mundial da Saúde afirma que a masculinidade tóxica é capaz de matar. Estudos já indicam que os homens cuidam menos da saúde, assim como têm mais dificuldade de procurar ajuda médica. O câncer de próstata é um perfeito e problemático exemplo disso. Por falta de informação e preconceito sobre o exame de toque retal, os homens cisgêneros acabam diagnosticados tardiamente - o que diminui as chances de cura.

Além disso, um em cada cinco homens cisgêneros que vivem nas Américas morre antes dos 50 anos. Muitas dessas mortes acontecem em decorrência de doenças crônicas não transmissíveis, comportamentos compulsivos, acidentes de trânsito, homicídios e suicídio (cuja taxas estão aumentando). Outro dado confirma como a masculinidade tóxica estimula a agressividade também atrás do volante: em 2016, 77% dos mortos em acidentes de trânsito no estado de São Paulo eram homens cisgêneros, de acordo com dados do governo.

A saúde mental também é uma importante variável a ser considerada. A Associação Norte Americana de Psicologia estima que 80% dos homens americanos cisgêneros sofram de alexitimia: incapacidade de expressar, descrever ou distinguir entre as emoções. Tal dificuldade pode influenciar no desenvolvimento de uma variedade de distúrbios, especialmente psicossomáticos (como enxaqueca, gastrite, disfunção erétil), e alguns transtornos por uso de substâncias (drogas lícitas e ilícitas).

Como se não bastasse, segundo pesquisas, homens que se apoiam em uma concepção negativa da masculinidade podem acabar se isolando socialmente conforme envelhecem - isso impacta sua saúde, bem-estar e felicidade. Quando se deparam com problemas de saúde ou financeiros, por exemplo, eles podem sentir que não têm com quem se abrir.

Portanto, precisamos estudar e falar também sobre como a masculinidade tóxica é danosa para os próprios homens – além de prejudicial para outras pessoas, especialmente as mulheres. Reduzir os danos já causados por essa concepção de masculino requer aprimorar, sistematizar e disseminar dados sobre masculinidades e saúde, assim como desenvolver políticas públicas e programas que tratem do tema. E, óbvio, investir em educação sexual para desconstruir estereótipos de gêneros, garantindo que as novas gerações não repitam os erros que cometemos até aqui como sociedade.

 

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