Um homem e uma mulher brancos estão sentados no chão sobre tapetes, de frente para o outro, rodeados de almofadas e sob a luz de velas. Ele segura o rosto dela com uma mão.

Libido feminina: entenda o que é desejo sexual responsivo

Você sente que aquele tesão espontâneo pela parceria acabou? Bom, isso não é necessariamente uma disfunção sexual...

Por Théa Murta

“No início, eu tinha vontade de fazer sexo o tempo todo... Agora é bem diferente: não sinto mais aquele tesão espontâneo”. Esse tipo de relato é bastante frequente em meu consultório de psicologia e sexualidade. Pacientes também me perguntam como “despertar o desejo sexual feminino” ou “reacender o fogo” - especialmente em relacionamentos longos. Eu já escrevi aqui no blog da LUVV sobre o Ciclo de Resposta Sexual Humana e agora quero me aprofundar na questão do desejo sexual das pessoas com vagina.

Ao longo de décadas, as pesquisas científicas e acadêmicas entendiam esse ciclo como um modelo linear e cronológico. A primeira fase seria o desejo, depois viria a excitação, que poderia alcançar o orgasmo e a resolução (quando o corpo volta ao seu estado natural). Em 1979, a médica e sexóloga Hellen Kaplan foi pioneira ao definir o conceito de desejo sexual como a “motivação, abertura, disposição e vontade do indivíduo em entrar em uma relação sexual”. Em 2002, a psiquiatra Rosemary descreveu um modelo circular, bem mais complexo, e trouxe algumas reflexões importantes. Ela afirmou que nas mulheres cisgêneros o desejo sexual pode acontecer de forma espontânea (antes da excitação física e do ato sexual) ou responsiva (após estímulos e carícias da parceria).

 

Desejo sexual responsivo: ilustração do “modelo circular” proposto por Rosemary Basson para explicar o Ciclo de Reposta Sexual das mulheres cis

 

 

Vamos entender melhor as diferenças entre ambos. O desejo espontâneo surge naturalmente da própria pessoa, a partir da ausência de relações sexuais há algum tempo ou do processamento mental de estímulos sexuais reais (carícias, filme erótico etc) ou imaginários (memórias e fantasias sexuais). Já o desejo responsivo aparece como “resposta”, ou seja, depois de receber estímulos sexuais e ficar fisicamente excitada. Há um mecanismo de retroalimentação que informa o cérebro da situação (algo como “olha, acho que estamos transando”) e inicia a preparação para a atividade sexual (tipo “hum, agora estou realmente com vontade de fazer sexo”).

O reconhecimento do desejo responsivo pelo meio científico-acadêmico é fundamental porque livra muitas pessoas com vagina que têm queixa de baixa libido do diagnóstico de disfunção sexual. Não há nada de errado ou disfuncional por não sentirem desejo espontâneo em suas relações. Aliás, estudos mais recentes têm mostrado que a excitação feminina pode ser percebida não apenas pelos genitais, mas também de forma subjetiva e emocional. Em outras palavras, a motivação feminina para o sexo depende de diversos elementos. Relacionamentos conflituosos em que falta comunicação, parceria, comprometimento e respeito tendem a influenciar negativamente o desejo sexual.

Por isso é importante alimentar a cumplicidade e o erotismo no dia a dia do casal, seja com conversas acolhedoras em que a presença da parceria provoca bem-estar quanto através de demonstrações de afeto (beijos na boca, mensagens carinhosas etc). O clima de intimidade emocional é, sem dúvidas, um facilitador do desejo sexual das mulheres cisgêneros. Mas isso não significa que elas devam transar com a parceria apenas porque lhes ofereceram um jantar à luz de velas ou uma massagem relaxante... Apenas que, nessas circunstâncias, é mais provável o surgimento do desejo.

Embora Basson tenha aplicado o modelo circular do Ciclo de Resposta Sexual Humana e o desejo responsivo para mulheres cisgêneros, atualmente profissionais da sexualidade acreditam que esses conceitos são válidos para todas as pessoas – a despeito da identidade de gênero ou orientação sexual. A ideia de que o homem cisgênero possui um desejo sexual espontâneo, visual e urgente não seria algo inato, mas fruto de uma sociedade que incentiva e naturaliza desde cedo a sexualidade masculina - enquanto oprime e afasta as mulheres cisgênero da construção de seu desejo sexual, excitação e orgasmo. 

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