Dois homens estão deitados na cama. Um deles, oriental, apoia a cabeça com uma das mãos e toca o rosto do parceiro enquanto sorri.

Ilegais, terapias de reversão não promovem “cura gay”

Supostos “tratamentos” contra homossexualidade envolvem de hipnose à eletrochoque, ameaçando a saúde e o bem-estar das pessoas LGBT+

Por Rafael Zeni

Conhecidas como “cura gay”, as terapias de reversão são um conjunto de métodos que prometem – enganosamente - reverter a orientação sexual homossexual ou bissexual de uma pessoa, bem como identidades de gênero diferentes da cisgênero. Elas incluem técnicas da psicologia (comportamental, cognitiva e psicanalítica), além de abordagens médicas, religiosas e espirituais. Alguns “tratamentos” envolvem hipnose e até tortura, como o uso de eletrochoque.

Terapeutas reversivos consideram pessoas LGBT+ anormais e com tendência para diversos tipos de transtornos psiquiátricos. Afirmam, de forma envernizada, que a dinâmica “psicopatológica da homossexualidade e transexualidade” geraria sérias consequências para a saúde mental. Isso não passa de uma postura preconceituosa, que pode reforçar a visão negativa que a pessoa já tem de si. O consenso das ciências comportamentais e sociais é de que a homossexualidade e as trangeneridades são variações normais e positivas da orientação sexual e de identidade de gênero.

Não há tratamento para o que não é doença. Desde a década de 1990, o Conselho Federal de Psicologia proíbe a prática e a pesquisa das terapias de reversão sexual e (re)orientação sexual. E o Brasil não está isolado nesse posicionamento. Em 2009, a Associação Americana de Psicologia (APA) definiu que a homossexualidade e as identidades de gênero para além da cisgênero (como pessoas transgênero ou não-binárias) são expressões normais da sexualidade humana e que esforços terapêuticos na tentativa de mudá-las têm grave potencial de dano para a juventude.

Os serviços que pretendem “curar”, “reparar” ou “converter” uma orientação sexual ou identidade de gênero não possuem respaldo médico e evidências científicas. Ao contrário, representam uma séria ameaça à saúde e ao bem-estar das pessoas LGBT+. Os riscos potenciais da terapia de reversão incluem depressão, ansiedade, comportamento autodestrutivo, suicídio. A esperança de mudar algo intrínseco à pessoa, seguida pela falha do tratamento em alcançar tal objetivo, foi identificada como uma importante causa de sofrimento e de uma .

Em 2008, a pesquisadora e professora Julianne M. Serovich (University of South Florida) analisou os estudos sobre os efeitos das terapias de reversão realizados desde 1956 até a década passada. A autora concluiu que: "Homens e mulheres que buscam mudar comportamentos sexuais (...) devem ser informados de que a eficácia dessas terapias não foi provada, que a pesquisa sobre essas terapias é metodologicamente falha. Além disso, a teoria e a prática dessas terapias violam princípios de dignidade, competência e (...) responsabilidade social".

Os estudos que avaliaram as terapias de reversão sexual e de identidade de gênero são eticamente insustentáveis, metodologicamente questionáveis, sem o apoio da comunidade científica e não apresentam eficácia em sua intervenção. É preciso reforçar que o desconforto e o sofrimento vivenciados pelas pessoas LGBT+ têm como base fatores sociais – discriminação, por exemplo. Portanto, o foco do acompanhamento psicológico deve ser para a adaptação à condição, e não a alteração desta.

As terapias de reversão sexual representam uma distorção da abordagem psicoterapêutica e da diversidade sexual humana. Elas reduzem a qualidade de vida e estigmatizam todas as pessoas que não correspondem à norma cisgênero e heterossexual. Em suma, são especialmente absurdas porque não levam em consideração os direitos humanos e, em particular, os direitos sexuais e reprodutivos. Se você for vítima ou souber de profissionais que prometem a “cura gay”, denuncie.

 

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