Uma mulher branca está ajoelhada, com a cabeça baixa e encostada nas pernas de outra mulher. A que está em pé coloca uma das mãos sobre a cabeça da outra.

Não é só ciúmes: como identificar um relacionamento abusivo

Descubra o que é uma pessoa tóxica, quais os sinais de alerta e as consequência para a vítima

Por Theo Alarcon

“Estou falando isso para o seu bem, amor”. “Mas eu só estou pedindo as suas senhas porque me preocupo com você”. “Não deixo você sair de decote assim para te proteger”. “Não é que estou te afastando dos seus amigos, estou te fazendo um favor: eles não gostam de você de verdade”. Quando lê essas frases, você enxerga amor e cuidado ou controle e um tipo de violência? Um relacionamento amoroso pode ser super abusivo sem que haja agressão física ou verbal – como tapas e xingamentos.

É muito comum que vítimas de parcerias tóxicas não percebam como são manipuladas. Aliás, podem acreditar realmente que todo comportamento abusivo tem uma justificativa louvável. Por exemplo, ajudaria na sua evolução, segurança, crescimento profissional etc. Nessa dinâmica, muitas vezes quem está no poder inverte a situação e se coloca no papel de vítima: “Não quero que você tenha perfis nas redes sociais porque sou inseguro(a) e não quero ficar louco(a) de ciúmes, entende?”.  A seguir, te ajudo a entender melhor se você está em um relacionamento abusivo e como sair dele.

Características da relação abusiva

De maneira geral, uma relação abusiva se caracteriza pela dominação e pelo controle da individualidade da outra pessoa. Na prática, isso acontece por meio de chantagens, constrangimentos, críticas disfarçadas de elogios, manipulações, vitimização, ciúmes excessivos, proibições e conflitos frequentes que são naturalizados. Ou seja, você passa a acreditar que todos os relacionamentos funcionam assim mesmo...

Quando a dinâmica amorosa é saudável, a pessoa entende que tem o direito de seguir com as suas atividades individuais (academia, faculdade, trabalho, dança etc), usar as roupas que quiser (justa, com decote, barriga de fora), ficar a sós ou sair com amigues (não importa para onde), manter e fazer amizades sem qualquer proibição (do tipo “homens não!”) e, inclusive, terminar o relacionamento (sem sofrer perseguição).

Existem também as chamadas relações tóxicas, em que nem sempre existe abuso e controle da parceria, mas muito desgaste emocional. Elas são definidas pela competição, pelo desrespeito, pela falta de apoio mútuo, por brigas que quase nunca terminam em solução ou ultrapassam os limites da liberdade e da singularidade da outra pessoa.

Toda relação abusiva é, portanto, uma relação tóxica. Entre as consequências negativas, estão a perda da liberdade, baixa autoestima, prejuízos nos vínculos sociais, sentimento de culpa e percepção negativa de si mesmo.

Por que alguém fica numa relação abusiva?

Muitas pessoas não conseguem denunciar ou sair de uma relação abusiva, em especial mulheres cisgênero em relacionamentos heteronormativos (quando existe a dominação masculina). Elas podem permanecer por diferentes motivos: expectativa de que a parceria mude o comportamento, dependência financeira, preocupação com a educação das crianças, dependência emocional e falta de rede de apoio. Além disso, muitas vítimas estão submetidas à violência psicológica e patrimonial sem que percebam – justamente por serem mais veladas.

Também é importante lembrar que nosso primeiro modelo de relação são nossos cuidadores primários (mãe, pai, avós etc). A forma como essas pessoas se relacionavam entre si e conosco durante a infância ajuda a moldar o que consideramos aceitável ou não em um relacionamento amoroso na vida adulta. Às vezes, esses exemplos envolvem exercício de poder, superproteção e/ou comunicação violenta.

Isso não significa que quem passou por esse tipo de experiência e carrega essas emoções vai se tornar – necessariamente – um(a) adulto(a) abusivo(a) ou vítima de uma relação tóxica. Depende de como essa pessoa elaborou suas vivências. Mas perceber que tipo de educação afetiva recebemos quando crianças pode ajudar a compreender como nos relacionamos hoje e identificar possíveis falhas.

Pessoas excessivamente passivas ou excessivamente controladoras têm probabilidades maiores de se envolverem em relações não-saudáveis. Seja por não atuarem ativamente na manutenção da sua individualidade (passivas) ou por não lidarem bem com a frustração de não ter suas vontades totalmente atendidas e projetarem no outro essa necessidade (controladoras).

Como sair de uma relação abusiva?

Para a vítima, identificar que está em uma relação tóxica já é parte complexa do processo. Muitas vezes o exercício da manipulação e os efeitos na autoestima impedem que ela consiga agir de forma efetiva para sair de um ciclo de violência. O sentimento que leva à denúncia costuma ser a exaustão, a vergonha diante de pessoas próximas e o medo de que a situação se agrave ainda mais.

É necessário reunir coragem, fortalecer o emocional/psíquico através de psicoterapia, perceber as pessoas ou instituições que servirão como rede de apoio, criar estratégias práticas que incentivem a autonomia da vítima até que ela tenha chances de sair da relação abusiva o mais preservada possível.

Grupos de apoio a pessoas vítimas de violência doméstica também são iniciativas que ajudam a quebrar esse ciclo. É fundamental que a gente consiga sempre reconhecer nossos limites e não deixar que eles sejam alcançados - muito menos ultrapassados - por qualquer pessoa com quem nos relacionamos.

 

*Foto: Pexels

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