Cinco elásticos de cabelo coloridos estão sobrepostos em um suporte redondo. Embaixo deles há um ramo de flores lilás.

Hímen: vamos romper com os mitos?

Ginecologista sexóloga explica que a membrana parece elástico de cabelo e não deveria ser associada à virgindade

Por Teresa Embiruçu

O hímen ganhou uma relevância desproporcional ao seu papel no corpo das pessoas com vulva. Em diversas culturas, ele ainda é - erroneamente - considerado um “atestado de virgindade”. Não à toa surgem tantas dúvidas sobre quando e como ele se rompe, se é visível, se sangra e dói... Para desmistificar esse assunto, vamos imaginar o hímen como um elástico de cabelo localizado na entrada da vagina e com uma abertura no centro.

Essa “pelinha” minúscula é feita de restos de membrana do canal vaginal que sobraram enquanto o embrião se desenvolvia no útero. Ao contrário do que muita gente acredita, o hímen NÃO cobre completamente a entrada da vagina, fechando-a até que algo penetre e faça um som de “ploc!”. Prova disso é que ele permite a passagem do sangue menstrual e de secreções desde sempre. 

*Leia mais: Anatomia íntima – não confunda vulva com vagina!

Então qual a função do hímen? A única hipótese científica seria a de impedir que bactérias do ânus entrassem na vagina de crianças pequenas, evitando infecções. Fora isso, não existe nenhuma explicação fisiológica para a sua existência. E assim como os elásticos de cabelo têm diferentes formatos, o hímen também pode ser naturalmente mais fino, mais flexível, mais grosso, mais resistente...

Tipos de hímen

  • Anular: quando parece um anel;
  • Septado: o orifício é separado em dois por uma pele no meio;
  • Complacente: formato igual ao anular, mas a membrana é mais grossa e mais elástica. Ela permite a passagem de pênis, dedo e qualquer outro objeto sem se modificar e sem causar sangramentos.
  • Cribiforme: existem vários furinhos e se assemelha a uma peneira (muito raro);
  • Imperfurado: uma condição congênita em que o hímen fecha a vagina e precisa ser aberto com ajuda médica para permitir a passagem do sangue menstrual (muito raro);
  • Atresia himenal: a pessoa nasce sem hímen, o que não acarreta nenhum problema de saúde (muito raro).

O hímen complacente, que merece um capítulo à parte, pode gerar desconforto ou até dor durante a penetração. Algumas pessoas descrevem uma sensação de pele esticando e ardência. Nesses casos, é importante passar por avaliação com ginecologista. Diante desses exemplos, você entende por que não é nada justo dizer que “o hímen se rompe”? Ele pode ser modificado quando algo acontece no canal vaginal, mas não necessariamente uma relação sexual com penetração.

O uso de absorvente interno, copinho ou disco menstrual podem “romper o hímen” dependendo do formato dele. A masturbação também, se houver introdução de dedo ou objeto - como vibrador - na vagina. Mas a grande questão é que a gente se pergunte: “E daí?”. Ter o “hímen rompido” (que expressão detestável!) não muda realmente o corpo, não prejudica a saúde, não define sua trajetória sexual.

*Leia mais: Precisamos repensar o conceito de virgindade

Se alguém pode perceber? Depois que o hímen sofre mudanças, as membranas ficam com aspecto de linguetas ou pétalas (chamadas de carúnculas himenais). Como elas são da mesma cor da mucosa da vagina, dificilmente dá para identificar olhando por um espelho ou mesmo no toque – a não ser que a pessoa seja ginecologista. O “hímen rompido” permanece no mesmo lugar por toda a vida.

E o sangramento que costumava ser prova de “hímen rompido” e “perda da virgindade”? Nem sempre sangra depois da primeira penetração vaginal. Primeiro porque o hímen pode ser mais ou menos vascularizado. Segundo, depende do formato/estrutura (mais fino ou mais grosso, mais elástico ou mais resistente). Em terceiro lugar, a presença ou não de sangue pode estar relacionada à intensidade da penetração.

Quando ALGUNS hímens são “rompidos”, o sangue que sai é vermelho vivo e geralmente em quantidade bem menor do que o fluxo menstrual. Ele para de sangrar espontaneamente, não é preciso fazer nada. Se não sangrar, também está tudo certo! Uma pele tão minúscula (quase um resquício evolutivo) não merece tamanho significado, não pode determinar se uma pessoa é ou não virgem.

A virgindade é um conceito social. A primeira relação sexual diz respeito ao encontro erótico entre duas pessoas. A masturbação, o uso de absorvente interno ou coletor menstrual não podem ser associados a “deixar de ser virgem” porque corre-se o risco de “romper o hímen”. A reflexão vai além: algumas pessoas com vagina praticam sexo oral e sexo anal, mas se consideram “virgens” porque não houve penetração pênis-vagina (acreditando que o hímen continua intacto).

Será que o hímen não é uma forma de controle sobre a sexualidade feminina? Não há nada semelhante no pênis que denuncie uma vida sexual ativa...

*Foto: Pexels / Skylar Kang

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