Uma mão passa os dedos sobre os gomos de uma laranja cortada ao meio.

Gozar só: por que a masturbação ainda é tabu?

Deveríamos explorar o potencial de nossos corpos com prazer – e não vergonha, culpa ou bloqueios!

Por Teresa Embiruçu*

Durante a consulta em ginecologia, ao invés de perguntar para a pessoa se ela tem o hábito de se masturbar, digo: “Quantas vezes você se masturba por dia ou por semana?”. Faço isso de forma intencional. Quero deixar evidente, logo no início da conversa, que masturbação não é motivo nenhum para sentir vergonha. Pelo contrário, deveria ser algo corriqueiro nas nossas vidas. Essa prática sexual leva ao autoconhecimento e pode ser fonte de muito prazer. Então por que ela ainda é tabu - especialmente para as mulheres?

Entendi um pouco da História da masturbação quando visitei o Museu do Sexo, na cidade de Praga (República Checa), em 2017. Fiquei chocada diante de cadeados e cintos de castidades, objetos de ferro que realmente impossibilitavam qualquer acesso à região genital – muito menos para o ato sexual. Tais artefatos foram usados séculos atrás, inclusive no período em que a medicina acreditou que o orgasmo seria um fator de risco para comportamentos neuróticos em mulheres - supostamente mais vulneráveis a problemas emocionais. Ou seja, gozar poderia desencadear nelas uma certa “loucura”.

 

Exemplar de um cinto de castidade para mulheres exposto no Museu do Sexo, em Praga (Foto: Sex Machines Museum)

 

Essas conclusões estavam erradas, óbvio. Mas repare que a ideia da masturbação feminina enquanto algo proibido, feio e promíscuo permite perpetuar a imagem da mulher cisgênero como fonte apenas da reprodução humana. Em sociedades onde o machismo impera, manter a mulher dependente de um pênis para ter prazer faz com que ela siga sem autonomia e liberdade. Imagine se essa pessoa descobre que tem entre as próprias pernas o clitóris, um órgão feito só para o prazer sexual, e não depende de mais ninguém para vivenciar seu orgasmo?

Um estudo sobre o comportamento sexual no Brasil com mais de 8 mil pessoas cisgêneros e heterossexuais entrevistadas, realizado sob a coordenação da psiquiatra Carmita Abdo, da Universidade São Paulo (2000), revelou que 40% das mulheres nunca se masturbaram, contra 3% dos homens. Essa expressiva diferença na vivência íntima entre gêneros se deve tanto a questões anatômicas quanto culturais.

Primeiro que a vulva e a vagina ficam mais escondidas no corpo, se comparadas ao pênis. Mais externo, o órgão sexual masculino é manipulado várias vezes ao dia, seja na troca de roupa ou para fazer xixi. Por volta dos três ou quatro anos de idade, o toque genital se dá por curiosidade e com inocência - não há um contexto sexualizado ou erotizado. Logo cedo as crianças descobrem que o pênis existe e tocar nele provoca uma sensação gostosa. Essa vontade de mexer no membro é vista como natural e até estimulada pelas outras pessoas.

O mesmo não acontece se a criança possui vulva e vagina. Ao se tocar, é comum que ela ouça frases repressivas e castradoras. Por exemplo: “Quem está te ensinando a fazer essas coisas feias?”. Isso se não receberem também um tapinha na mão para pararem com a exploração genital. Inconscientemente, o ato de se tocar fica registrado como algo errado e que não deve ser repetido. Nasce assim, na infância tenra, uma culpa por desejar o toque que pode acompanhar a pessoa em toda a sua vida adulta e atrapalhá-la na experimentação da sexualidade plena.

Além disso, a forte presença da religião judaico-cristã em nossa sociedade reforça o “caráter pecaminoso” da masturbação, desestimulada principalmente entre jovens. Segundo essa crença religiosa, a prática sexual solitária poderia antecipar uma vontade de se relacionar sexualmente com outra pessoa – e é preciso garantir a “pureza” para conseguir um “bom” casamento.

Mas o autoerotismo é autoconhecimento, é autoamor, é autocuidado. Com o prazer ao alcance das próprias mãos, a pessoa com vagina não só pode como deveria gozar sozinha. Precisamos derrubar o tabu da masturbação feminina com educação sexual e falar sobre o assunto tanto em rodas de amigas quanto em consultas médicas. Compartilhar dicas sobre como se masturbar, quais brinquedos facilitam o orgasmo etc. Explorar as suas zonas erógenas e chegar ao ápice do prazer sozinha (mesmo estando em um relacionamento) vai te dar ainda mais poder sobre o próprio corpo. Experimente!

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