Close nas pernas de uma mulher, que está sentada e passa creme ao longo de sua coxa.

Gel de testosterona aumenta o desejo sexual das mulheres?

Ginecologista sexóloga explica para que serve e como usar a medicação hormonal, além de seus efeitos colaterais

Por Carolina Ambrogini*

Cada vez mais mulheres cisgêneros chegam ao meu consultório e de colegas ginecologistas perguntando (ou já pedindo prescrição para uso) do famoso gel de testosterona. Elas querem aumentar a libido e a energia. Quem não quer um “up” na vida, não é mesmo? Brinco que deveríamos diluir logo esse gel na água de todas as pessoas para ficamos sempre turbinadas e fogosas. Na verdade, precisamos desmistificar um pouco o assunto. A testosterona não é milagrosa: não salva casamento falido, não torna sua parceria mais atraente, não faz sua chefia cobrar menos no trabalho, não vai transformar a sua vida... A menos que você faça um movimento para que isso aconteça, como uma mudança de hábitos e rotina.

Para que - e para quem - serve

O gel de testosterona é indicado para mulheres cisgênero* com indícios de diminuição dos androgênios - a grande família de hormônios da qual deriva a testosterona. Esses sintomas são baixa libido (não justificável por outras razões, como conflitos conjugais), baixa de energia com fadiga e desânimo. Sabe aquele cansaço crônico que não melhora depois de uma boa noite de sono?

Talvez agora você tenha concluído: “Puxa, então metade das mulheres cis do planeta tem indicação de usar o gel de testosterona!”. Afinal, levante a mão aí quem não está cansada... Mas esta é a questão fundamental sobre prescrever ou não tal medicação para a paciente. Será que ela está com as energias sugadas por causa de uma deficiência hormonal realmente ou a “culpa” é de um estilo de vida com jornada tripla de trabalho?

Embora seja possível dosar os níveis de testosterona por meio de exames laboratoriais, os resultados não são fidedignos e confiáveis – o mais recente consenso científico sobre o assunto descartou essa conduta. O diagnóstico é clínico, a partir de uma boa conversa entre profissional e paciente.

Geralmente o problema da paciente não é fisiológico (a falta do hormônio), mas a presença de uma rotina tão pesada que não dá tempo de praticar o autocuidado, ter bons hábitos e ânimo para namorar - os casais estão exaustos e preferem dormir. Não cabe aqui prescrever o gel de testosterona. Recomendo que ambas as pessoas reavaliem seus cotidianos e promovam mudanças práticas.

Sabemos que as mulheres cisgênero têm uma queda lenta e gradual dos níveis deste hormônio por volta dos 40 anos, mas apenas uma pequena parcela realmente precisará de reposição. Neste caso, o gel de testosterona traz benefícios e pode ser aplicado na pele uma vez ao dia – em qualquer parte do corpo, com exceção das mamas. Os resultados costumam ser notados depois de duas semanas de uso.

A medicação é uma fórmula manipulada com doses baixas para evitar efeitos colaterais masculinizantes. Mesmo assim, pessoas com pele oleosa, acne e queda de cabelo podem perceber piora desses sintomas com o uso do gel de testosterona.

É seguro?

Essa medicação hormonal ainda não é liberada por agências reguladoras como a Anvisa e o FDA americano. A prescrição é feita “off label” (sem bula) e, no Brasil, apenas em fórmulas manipuladas. Já foram publicadas pesquisas internacionais renomadas sobre o uso da testosterona em mulheres cisgêneros. Evidências apontam que o gel de testosterona não aumenta o risco de cânceres (como o de mama), não gera trombose ou outros efeitos cardiovasculares. Porém, a medicação é contraindicada para pessoas que já enfartaram ou com obesidade (esta doença crônica já eleva o risco cardiovascular, que poderia ser ainda maior com o uso do hormônio).  

Há um consenso científico com diretrizes que oferecem segurança para pacientes na menopausa, desde que o hormônio seja prescrito em doses baixas e por um período de até dois anos. Já a Federação Brasileira de Ginecologia autoriza o uso em mulheres cis acima dos 40 anos. Mulheres mais jovens só podem usar o gel de testosterona em situações específicas – por exemplo, em caso de retirada dos ovários ou problemas nas glândulas supra-renais.

Mas e aquelas pacientes que usam pílula anticoncepcional, responsável pela diminuição dos níveis de testosterona no organismo? Se for identificado que o problema da libido está relacionado ao uso dela, a recomendação deve ser pela troca do método contraceptivo. Isso porque, ao interromper a pílula, a mulher já volta a produzir o hormônio e não há necessidade de repor com gel.

Não existe milagre para libido feminina

Sinto decepcionar aquelas pessoas que creem no gel de testosterona como a solução para todos os problemas de libido. Mesmo nos casos em que a medicação hormonal é indicada, percebo que ela só ajuda quando os casais saem das relações automáticas e sem graça, passam a se olhar mais e adquirem hábitos de erotização.

Aliás, aí a reposição da testosterona até deixa de ser necessária, pois o cérebro reaprende a buscar pelo desejo. Faça um teste: leia um conto erótico por dia e veja se a libido não aumenta - existem vários gratuitos na internet... Para ter mais disposição, adote uma alimentação mais saudável (com menos industrializados), pratique atividades físicas (valem até caminhadas pelo bairro ou trocar o elevador pelas escadas) e medite (você só precisa de um cantinho para fechar os olhos!). Desconfio que o gel ficará guardado em alguma gaveta.

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