Uma mão segura um chicote de tiras pretas sobre fundo vermelho.

Fantasia sexual pode virar doença?

Desejo por dominação, pés, urina, látex... Descubra em que casos é preciso buscar tratamento médico – ou apenas continuar se divertindo

Por Marina Zaneti

Até décadas atrás, o comportamento sexual considerado “normal” ainda estava atrelado ao conceito reprodutivo. Ou seja, ao sexo entre um homem e uma mulher cisgêneros com penetração vaginal e finalidade de gerar descendentes. Práticas e desejos que se distanciavam desse padrão costumavam ser rotulados como patológicos: de sexo anal a fantasias sexuais sadomasoquistas. Por essa perspectiva ultrapassada da sexualidade, boa parte da população atual está doente e precisa de tratamento psiquiátrico.

A psiquiatria, minha amada área de atuação, foi bastante influenciada pela moral religiosa ao longo de sua história. Não é uma coincidência que, durante séculos, os médicos tenham taxado o prazer sexual como pecado, luxúria, crime, perversão. Muito menos que, ainda hoje, pacientes me perguntem se é normal ter fantasias sexuais, tentem descobrir quais as mais comuns entre homens e mulheres ou peçam ajuda para falar com a parceria sobre o que lhes excita.

Ainda bem que, após anos de estudos e classificações, a ciência finalmente evoluiu nesse sentido: constatou que seres humanos são muito complexos e têm o direito de exercer a própria sexualidade em sua profundidade. Isso significa explorar, praticar e cuidar dela para que continue viva e pulsante. Dentro do que atualmente é considerado normal e saudável, existe uma ampla gama de possibilidades.

As práticas BDSM (sigla para bondage, disciplina, dominação e submissão), por exemplo, são extremamente prevalentes em nossa sociedade... E uma pessoa não é doente apenas porque gosta de ser chicoteada ou amarrada em uma relação ou encenação sexual. Da mesma forma, não há problema na maior parte do fetiches: podolatria (excitação por pés ou calçados), voyeurismo (prazer em observar o sexo alheio), uso de látex e/ou couro, urofilia (tesão em urinar na parceria, mais conhecido como golden shower)...

O filme espanhol “Kiki – Os segredos do desejo” (2016) aborda de forma leve e sábia a perspectiva de um relacionamento afetivo sadio em que é possível colocar em jogo as fantasias sexuais – por mais estranhas que elas possam parecer. Já em “Ninfomaníaca” (2013), Lars Von Trier revela o lado obscuro do sexo como obsessão, limitando a vida afetiva e colocando em risco (físico e emocional) a personagem principal.

Mas, afinal, existe alguma fantasia sexual considerada doença? Ou quando ela vira um problema, trazendo prejuízos reais? Apenas o que não for consensual ou que causar sofrimento significativo ou expor alguém a risco de lesão grave ou morte é considerado um transtorno passível de tratamento psiquiátrico. Exemplos: necrofilia (desejo sexual por cadáveres), pedofilia (atração por crianças) e frotteurismo (roçar os genitais em outra pessoa sem consentimento, como os casos noticiados em transporte público).  

Como psiquiatra e estudiosa da sexualidade humana, posso garantir que são exceções. Em geral, as fantasias sexuais são muito benéficas. No mais, somos únicos e estranhos a quem não nos conhece. Mas devemos ser extremamente conscientes e sinceros com os nossos desejos. Estar em paz com eles é estar em sincronia com a vida e o quão rica ela pode ser – sempre respeitando os nossos limites e os da pessoa com quem nos relacionamos.  Não há nada mais justo do que nos permitirmos gozar.

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