Uma mulher negra está sentada em uma cama com os joelhos flexionados. Ela sorri para a câmera. Suas meias e uma almofada trazem as cores do arco-íris.

Espectro e fluidez: a sexualidade humana não cabe em caixas

Ginecologista reflete sobre a importância de não se restringir às questões biológicas de pacientes, mas acolher sua complexidade sexual

Por Mariana Prado

Sexualidade é um assunto tão tabu, carregado de tantos estigmas, que enfrentou certa negligência até mesmo na medicina (afirmo como ginecologista e obstetra). Por muito tempo, pesquisadores e profissionais da saúde se restringiam a analisar os fatores sexuais de pacientes de forma biológica – os sistemas reprodutivos, suas funções e doenças. As questões de gênero e orientação sexual quase não eram discutidas, muito menos como elas interferiam na satisfação sexual.

*Leia mais: A diferença entre sexo, identidade de gênero e orientação sexual

Ainda hoje, termos como “não-binariedade”, “espectro de gênero” e “sexualidade fluida” não são muito conhecidos no meu meio profissional. Bom, vale lembrar que a homossexualidade foi considerada doença mental pela Organização Mundial da Saúde (OMS) até 1990... Quanto sentimento de inadequação, tratamento para a “cura gay” e discriminação encontraram respaldo nesse diagnóstico equivocado?

Os estudos científicos vêm comprovando que existem diversas possibilidades de ser, desejar, existir. A sexualidade humana é realmente complexa. O sexo biológico, a identidade de gênero e a orientação sexual não são conceitos binários – ou seja, vagina x pênis; feminino x masculino; heterossexual x homossexual. Por exemplo: a atração sexual e afetiva de uma pessoa não seria uma coisa OU outra, mas estaria dentro de um espectro.

Seria uma espécie de “régua” entre a heterossexualidade, a bissexualidade e a homossexualidade, compreendendo ampla possibilidade entre as três denominações e levando em consideração não só fatores biológicos, mas também mentais e emocionais. Isso para não falar da assexualidade, da demissexualidade, pansexualidade etc.

*Leia mais: Demissexuais – atração depende de conexão emocional profunda

Outra camada da sexualidade seriam as identidades de gênero: cis, trans, travesti, não-binárie... E você já pensou na responsabilidade ética da medicina nos casos de pessoas intersexuais (antigamente chamadas de hermafroditas), que nascem com aparelho reprodutor e genitais ambíguos? Devemos definir imediatamente o gênero desses bebês ou submeter crianças a cirurgias e tratamentos para se adequarem aquilo que foi definido?

Muitas formas de se existir e se relacionar já existiam desde tempos antigos, mas não eram denominadas e estudadas - talvez colocadas em um lugar de perversão. O que mudou? A modernidade trouxe uma nova forma de viver a sexualidade, para muito além do sexo biológico. As pessoas negando a ideia de que o prazer está atrelado ao pecado ou de que as relações não-heterossexuais são doença, aceitando a pluralidade e a possibilidade de se reconhecer como alguém que possui desejos completamente individuais.

Acatar o conceito de espectro é fugir lógica maniqueísta heterossexualidade x homossexualidade, acolhendo a amplitude da sexualidade humana. A partir do momento em que as pessoas e a sociedade aceitam a sua fluidez, mais prazerosa fica a jornada. Afinal, um corpo sexuado envolve um ser livre para construir a sua própria identidade e, consequentemente, o seu próprio discurso afetivo: diferente, igual diferentes somos.

 

*Foto: Pexels / Monstera

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