É normal ter fantasias sexuais?

É normal ter fantasias sexuais?

Entenda por que a imaginação pode ser até mais importante para o desejo sexual que o estímulo dos genitais

Por Marina Zaneti*

A psiquiatra e sexóloga americana Helen Singer Kaplan, que deu diversas contribuições para o conhecimento da sexualidade, trouxe também a importância da fantasia sexual como um elemento primordial para a construção do prazer. Defendia que o prazer sexual é o encontro de dois efes: o “F” maiúsculo representa a Fantasia Sexual e o “f” minúsculo, a fricção (estímulo genital).

O que são fantasias sexuais? Para que servem? Do que se alimentam?

Fantasias sexuais são pensamentos, imaginações ou lembranças que incitam e/ou aumentam a excitação sexual. Podem ser constituídas de situações, pessoas ou momentos que já vivemos, de um filme que assistimos, de um site que visitamos, de livros que lemos e até mesmo de produções da própria imaginação, em suas múltiplas possibilidades. Alguns exemplos de fantasias sexuais: um lugar romântico, receber sexo oral, ter relações sexuais com duas mulheres (e/ou) com dois homens, dominação, submissão.

Estudos indicam que a frequência com que uma pessoa acessa fantasias sexuais está diretamente relacionada a uma melhor qualidade de vida sexual, especialmente com maior repertório erótico. E nem todas contam para suas parcerias quais fantasias sexuais as excitam, talvez por timidez ou medo da reação da parceria (nos próximos posts, vou trazer dicas sobre como abordar a questão). Ou acreditam ser algo imoral, errado, sujo.

Certa vez uma paciente casada relatou que se sentia culpada ao ter fantasias sexuais com outro homem. Após algumas sessões, ela percebeu o quanto aquela imaginação funcionava como recurso para excitá-la. A maior parte das fantasias sexuais fogem de temas relacionados a valores monogâmicos e reprodutivos, padrões ainda marcantes em nossa sociedade. Por isso é comum o sentimento de inadequação ou culpa. Inibidas, as pessoas podem censurar o arsenal erótico interior e, consequentemente, sufocar o desejo sexual. Falta de libido, aliás, é umas das queixas mais comuns em meu consultório.

A cada pessoa cabe sua fantasia sexual, formada a partir de meandros do desenvolvimento psicossexual, de quem você sempre foi, das suas nuances mais secretas. Explorar o conteúdo dela pode ser muito rico para um processo de autoconhecimento – inclusive para refletir diversos aspectos da sua personalidade, história de vida e como entende a si mesma.

Não há nada de simples, pobre ou supérfluo numa fantasia sexual. Muito pelo contrário. Além disso, as fantasias sexuais também podem mudar ao longo da vida. Ou seja, algo que excita hoje pode não excitar mais amanhã. E chegam novos conteúdos eróticos.

O cérebro é um órgão tão (ou mais) sexual quanto os próprios genitais. Com o pensamento vamos a qualquer lugar, imaginamos sensações, cheiros e sabores, temperos e cores. Podemos sonhar com o momento perfeito, a melhor roupa, o melhor jantar, as melhores palavras. Ou o oposto, basta que faça sentido.

Quando estamos numa relação sexual, buscar a fantasia gera o gatilho necessário para ativar o prazer e, no ápice, atingir o orgasmo. Mais do que útil, é um recurso essencial. O médico britânico Alex Comfort, autor de The Joy of Sex (“Prazeres do Sexo”, na edição em português), estava certo quando afirmou: “O ato sexual não é só um encontro de peles; ele é, sobretudo, um encontro de fantasias”.  

*Marina Zaneti é psiquiatra especialista em Transtornos da Sexualidade Humana pela USP. Mestre em Ciências pela Unifesp, ex-voluntária do Projeto Afrodite e Núcleo Trans (Unifesp). Integrante do Coletivo Ser e entusiasta da sexualidade como instrumento na construção de liberdade, autonomia e afeto.

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