Uma mulher branca transgênero posa com as mãos tocando delicadamente o próprio rosto.

Disforia de gênero: o que é, causas e tratamento

Entenda o sofrimento de muitas pessoas trans que não têm a identidade validada por causa de seus corpos

Por Theo Alarcon

Pessoas transgênero  não se identificam com o gênero que lhes foi atribuído no nascimento a partir de características sexuais – como o órgão genital. Ter uma identidade (a forma como você se reconhece) que não é socialmente validada por causa do seu corpo físico pode gerar intenso sofrimento psíquico , provocar prejuízo social e necessitar de cuidados específicos. Há, inclusive, um diagnóstico para esses casos: disforia de gênero. Muitos homens trans, por exemplo, sentem profundo desconforto com seus seios, assim como muitas mulheres trans rejeitam o próprio pênis. Por isso recorrem à terapia hormonal e cirurgias de redesignação sexual (erroneamente conhecida como “mudança de sexo”).

- Como identificar? 

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM – 5), referência mundial para questões de saúde mental e sexualidade, a disforia de gênero é uma incongruência acentuada entre o gênero experimentado/expresso (aquele no qual ela se reconhece) e o gênero designado de uma pessoa (atribuído no nascimento). Deve durar há pelo menos seis meses e apresentar, no mínimo, dois dos seguintes sintomas:

  1. Incongruência acentuada entre o gênero experimentado/expresso e as características sexuais primárias (vulva, pênis) e/ou secundárias (seios, pelos faciais, voz etc).
  2. Forte desejo de livrar-se das próprias características sexuais primárias e/ou secundárias em razão de incongruência acentuada com o gênero experimentado/expresso…
  3. Forte desejo pelas características sexuais primárias e/ou secundárias do outro gênero.
  4. Forte desejo de pertencer ao outro gênero (ou a algum gênero alternativo diferente do designado).
  5. Forte desejo de ser tratado como o outro gênero (ou como algum gênero alternativo diferente do designado).
  6. Forte convicção de ter os sentimentos e reações típicos do outro gênero (ou de algum gênero alternativo diferente do designado).

- O que causa a disforia de gênero?

A disforia de gênero é uma síndrome cultural que se manifesta devido à complexa interação entre a nossa visão cultural sobre o ideal de feminilidade, masculinidade e beleza. Quer dizer, o diagnóstico está diretamente ligado à leitura social de gênero. Quando o DSM trata como “incongruência entre sexo biológico e gênero expresso”, estabelece que congruente seria a total concordância com a norma social determinada para aquela pessoa a partir de um conjunto de características físicas.

Portanto, espera-se determinados comportamentos alinhados a um gênero a partir de seu órgão genital. Mas sabemos que genitália não é garantia determinante para gostos, preferências e identificações sociais. Ou seja, leva-se em consideração a compreensão cultural de oposição de gênero para a denominação dos sintomas desta disforia.

Logo, o que pode desencadear uma crise disfórica (ansiedade, depressão e sofrimento) numa pessoa é a sensação de inadequação que ela experimenta devido à não-conformidade de sua identidade com o que é normatizado. Sensação que geralmente é agravada por situações de transfobia , preconceito e não reconhecimento da identidade da pessoa.

- Como tratar?

Como uma questão de saúde mental, a disforia requer psicoterapia não apenas para tratar a depressão e/ou a ansiedade da pessoa, mas também como processo de autoconhecimento. Por meio dele, ela terá condições de determinar o próprio gênero (aquele com o qual se identifica) e decidir as estratégias para amenizar ou eliminar as crises disfóricas. Procedimentos de hormonização (terapia hormonal), cirurgias estéticas ou de transgenitalização (adequação do genital à identidade de gênero) são recursos bastante utilizados e costumam trazer maior conforto e qualidade de vida.

É importante ressaltar que a experiência transgênero é tão subjetiva quando as vivências não trans, portanto a disforia não é uma regra, assim como a utilização dos recursos hormonais e/ou cirúrgicos também não. Também precisamos reforçar que a transexualidade por si só não é uma patologia, mas uma condição relacionada à saúde sexual. Aliás, por isso o termo transexualismo está errado - o sufixo “ismo” remete à doença. A transexualidade não precisa de cura. A disforia de gênero é que pode ser tratada com atendimento psicológico adequado e demais recursos para melhorar a socialização, caso a pessoa sinta necessidade.

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