Uma pessoa não binária branca de cabelos compridos está sentada e apoia as mãos sob o queixo.

Descubra qual a diferença entre travestis e transexuais

Representados na sigla LGBTQIA+, os dois termos se referem à identidade de gênero (e não orientação sexual) de uma pessoa

Por Márcia Rocha

Transexuais existem desde a antiguidade e por todo o planeta - há registros no Egito antigo, na bíblia, em antigas tribos indígenas. Nos tempos atuais, vemos manifestações culturais de expressões transgêneras em diferentes culturas: muches no México, lady boys na Tailândia, hijras na Índia e travestis no Brasil. Muitas pessoas me perguntam qual a diferença entre travestis e transexuais – aliás, recentemente a apresentadora Fátima Bernardes se equivocou sobre o assunto em seu programa de televisão.    

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Segundo a Associação Americana de Psicologia (APA), qualquer indivíduo que não se identifique com o gênero [masculino ou feminino] correspondente ao sexo biológico de origem [cronomossomos XX ou XY] se enquadra na definição de transgênero. Assim, não é necessário que a pessoa trans se identifique com o gênero oposto, bastando que não se identifique com aquele que seria o seu. O termo transexual foi criado em meados do século XX, com o avanço dos estudos médicos, em uma tentativa de “adequar” algumas pessoas trans ao binarismo de gênero imposto por nossa cultura.

Assim, transexuais teriam “disforia de gênero”: um sofrimento intenso pela inadequação ao seu sexo biológico a ponto de necessitar de alterações físicas por meio das cirurgias de transgenitalização [conhecidas erroneamente como "cirurgia para mudança de sexo"]. Entretanto, embora realmente existam pessoas transexuais que desejam mudanças mais profundas em seus corpos para total adequação ao gênero oposto, outras não sentem essa necessidade. Além de terem sido desprezadas pela ciência ao longo de décadas, estas últimas permanecem sem atendimento médico na imensa maioria dos países.

População LGBTQIA+ vivia isolamento antes da pandemia – e piorou!

Em termos científicos, não há diferença entre transexuais e travestis. Subjetivamente, eu diria que transexuais têm disforia de gênero e travestis, não. Ou seja, de maneira geral, travestis não sofrem por causa de seus genitais de origem – apesar de se identificarem com o gênero oposto. O Brasil é um dos únicos países em que travestis podem tomar hormônios, colocar próteses, fazer adequações cirúrgicas, receber tratamento e acompanhamentos médicos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) sem uma modificação física total. Isso só foi possível graças à força do movimento social de travestis por aqui. Até 2011, somente pessoas transexuais que desejavam fazer a cirurgia de transgenitalização tinham esse direito.

Por uma questão histórica, a população de travestis ganhou visibilidade principalmente atuando na prostituição. Ao mesmo tempo que isso acabou por estigmatizá-la, também permitiu que existissem enquanto grupo organizado para demandar políticas públicas. É extremamente complicado para todas as culturas, binárias quanto à legislação e aos costumes, lidar com pessoas que não se enquadram plenamente como homens ou mulheres. Aposentam-se com que idade? Usam qual banheiro público? Como devem se comportar?

Embora travestis sejam binárias e demandem o papel feminino, suas características identitárias denunciam questões de gênero de nossa cultura, trazendo à tona uma estrutura social de poder. Pode uma mulher trabalhar e não ser submissa a um homem? Pode uma mulher gostar de sexo? Pode ser ativa? Pode uma mulher ter pênis? Acredito que não existem seres humanos certos e errados. O que existem são exigências culturais de comportamento que precisam ser revistas não apenas para pessoas trans mas para homens e mulheres cisgênero também. Afinal, que mulher é essa que eu quero ser?

Sou empresária, advogada e falo três línguas, mas sou transgênera desde a primeira infância. Tomei hormônios, fiz adequações físicas e me entendo mulher. Mas, embora me identifique com o feminino, não sinto rejeição ao meu órgão genital e tampouco conseguiria me enquadrar completamente em nosso modelo cultural de mulher. Portanto me denomino travesti, também por uma questão política ao assumir uma identidade muito estigmatizada para mudar a visão do mundo sobre essa população.

Com relação à minha orientação sexual, sou bissexual, mas com uma profunda preferência por mulheres. Assim, costumo dizer que sou uma “travesti lésbica”, no intuito de atacar os padrões e rótulos existentes. O fato é que eu sou quem sou, com minhas sensações e desejos próprios. Tenho minhas características, muitas delas talvez únicas no mundo, assim como todas as pessoas do planeta que são igualmente únicas, mas vivem cotidianamente se esforçando para enquadrar-se a padrões humanos pré-estabelecidos.

Somos pessoas perfeitas em nossas singularidades. Humanas.

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