Um homem branco espia entre as frestas de uma grande persiana branca.

Cuckold: o “fetiche do corno” envolve desejo e prazer de ser traído

Entenda como funciona essa fantasia sexual dentro de um relacionamento - e por que ela é considerada uma variante do masoquismo

Por Rafael Zeni

Imagine que você está em um relacionamento estável e feliz. Um dia, na intenção de explorar e apimentar a vida sexual, inicia uma conversa leve e saudável com a sua parceria sobre fantasias sexuais. O que provoca a excitação de quem você ama? Sua imaginação floresce.... algemas, tapinhas, uma encenação? “Eu quero ver você fazendo sexo com outra pessoa”. Silêncio. Choque. Soco no estômago. Raiva. Dúvidas. Curiosidade. “Como assim?”, você questiona, enquanto milhares de pensamentos passam por sua cabeça: “Não me ama mais? Não sente mais atração por mim? Isso é coisa de gente tarada!”.

Esta cena real poderia ter sido protagonizada por qualquer pessoa - homem, mulher, cis, trans, heterossexual, homossexual, bissexual, queer, pansexual... O desejo sexual de ser traído(a) não se restringe a uma identidade de gênero ou orientação sexual. Ele integra a ampla gama de possibilidades de obtenção de prazer e é bem mais frequente do que parece. Aqui no Brasil, segundo o Google, a busca pelo termo cuckold (“corno”) teve um aumento de 800% nos últimos 15 anos. A versão feminina para o fetiche é cuckquean.

Uma pesquisa rápida no portal de pornografia XVideos aponta mais de 42 mil vídeos com a prática. Um estudo do PornHub chamado “Sex and the Married Man” (algo como “Sexo e o homem casado”) também mostrou a grande audiência por vídeos em que o marido ou a esposa observa a parceria transando com outra pessoa. Para além da ficção, talvez você esteja se perguntando como é possível ter tesão em “dividir” com alguém a pessoa por quem se nutre afeto, amor, planos para o futuro... Vamos chegar lá.

Significado e práticas

O termo inglês cuckold tem origem no comportamento do pássaro cuco. Ele é conhecido por deixar seus ovos na segurança do ninho de outro pássaro, sobre responsabilidade deste, até que eclodam. Ou seja, ele próprio escolhe alguém para substituí-lo naquela função. Portanto, um ato consentido. E é justamente o consentimento que separa esse fetiche da infidelidade. A traição tem um ar de segredo, é silenciosa e não deseja aparecer. O cuckold é justamente o contrário: o prazer está no saber.

Mesmo com uma essência em comum, cada cuckold ou cuckquean tem suas nuances e limites. Algumas pessoas desejam presenciar o ato sexual da parceria (assistindo, estimulando, filmando) e outras preferem apenas ouvir os relatos de suas aventuras sexuais. Há ainda aquelas que preferem apenas desconfiar, a partir de “suspeitas” deixadas propositalmente. De forma geral, sentem prazer ao “interpretar” um papel de alguém inferior, traído(a) e humilhado(a) - porém com “contrato” previamente estabelecido e confiança na lealdade de sua parceria.

Alguns exemplos de combinados do casal com cuckold/cuckquean:

  • Sua parceria sai para encontrar um(a) amante e, ao chegar, te conta os detalhes.
  • A parceria volta para casa com uma companhia, enquanto a você fica no quarto ao lado escutando toda a ação.
  • A parceria sai para encontrar outra pessoa e grava o ato, para ser exibido para você ao chegar em casa.
  • O bom e velho voyeurismo em que você fica só observando a relação sexual entre sua parceria e outra pessoa.
  • Você participa da transa, de forma submissa e não atuante, alternando momentos de atividade e de voyeurismo.

É masoquismo ou swing que chama?

Para muita gente, a hipótese ou flagra de uma traição leva a um profundo sofrimento psíquico. Elas se sentem humilhadas, inadequadas, envergonhadas... No caso do cuckold, ao invés de sentimentos negativos, é acionado o prazer sexual. Não à toa, especialistas em sexualidade consideram a prática cuckold como uma variante do masoquismo (fetiche sexual no qual sente-se prazer a partir do próprio sofrimento físico ou psicológico).

Além disso, ela pode ser categorizada como uma parafilia - ou seja, um interesse sexual atípico que se manifesta de forma intensa e recorrente. Mas isso indica apenas uma preferência, não significa uma doença ou transtorno mental. Afinal, existe consentimento entre as partes envolvidas e não há sofrimento ou perigo. O cuckold também não é uma “válvula de escape” para uma orientação sexual “mal resolvida”. Onde está a diferença? Uma sexualidade reprimida causa sofrimento e adoecimento psíquico. A realização de um fetiche causa prazer.  

Vale também ressaltar que cuckold é diferente do ménage a trois (sexo a três) ou do swing (troca de casais). Nestes exemplos, o casal está na mesma “hierarquia”, tendo como princípio a obtenção de prazer sexual por meio do exibicionismo e voyeurismo. Não existe o conceito de traição e humilhação, apenas a troca de casais, ou transar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

Corno feliz

Devido à sua natureza cultural e moral, algumas pessoas não conseguem entender como é possível se excitar com uma “traição”. É de esperar que uma parceria com essa curiosidade acabe inibida, não se permita explorar o desejo sexual, se sinta confusa e culpada, sofra a ponto de influenciar negativamente na relação amorosa.

Bom, precisamos refletir sobre esse conceito de “dividir” quem amamos com alguém – afinal, a pessoa é livre, não está sob nossa posse. Você pode não ficar à vontade de compartilhar algumas experiências sexuais com a sua parceria e não há nenhum problema nisso! Existem diversas práticas e fantasias para explorar o prazer mútuo. Só não vale julgar o fetiche de um(a) corno(a) feliz...

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