Um homem de cabelos curtos e olhos maquiados segura um estojo de maquiagem com uma mão e um pincel com a outra.

Crossdresser é uma pessoa trans que não se assumiu?

O comportamento de vestir-se como mulher pode ser visto como hobby, fetiche ou identidade de gênero. Nossa colunista traz sua experiência pessoal e opina com base em anos de estudo

Por Márcia Rocha

Eu não compreendia o que ocorria. Aos quatro anos de idade, entendi que o mundo masculino simplesmente não era o meu, embora logo me tenha sido imposto que dele fizesse parte, menino que era. Eu desejava estar com as meninas e, já aos seis anos, vestia furtivamente as roupas de minha mãe, irmã e de qualquer desavisada que deixasse uma calcinha no chuveiro de qualquer casa. Aos nove anos, quando a sorte me permitia uma doméstica solidão, maquiava-me, vestia-me com anáguas, saias, saltos altos, colocava meias dentro do sutiã e ficava sendo.

Não pensava em homens. Sempre desejei mais as mulheres, o que confundia ainda mais minha existência. Certeza tinha duas, absolutas: esse desejo de me expressar pelo universo com o qual me identificava era irresistível e incurável; ninguém poderia saber disso. De longe, via as colegas da escola com seu jeito, cabelos, brincos, vestidos e era igual. Secretamente.

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Entretanto, quando os corpos das adolescentes começaram a mudar, o meu iniciava seu trajeto oposto. Eu não teria aqueles seios, aquelas curvas, as meias já não pareciam suficientes. Percebia no rosto delas o orgulho, a altivez, um novo quê de feminilidade mais amadurecida causado talvez pelos olhares masculinos, talvez pelo próprio espelho, pois se tornavam mulheres. O meu reflexo se tornava ingrato.

Aos treze anos, falei com uma travesti na rua e, rindo, ela me disse o que tomava para ter aquele corpo. Então comprei na farmácia minha primeira cartela de pílulas anticoncepcionais. Meses depois, feliz ao sentir e ver meus mamilos se desenvolvendo, decidi que era hora de escolher um novo nome. Márcia ficou. Até ali ninguém mais sabia das minhas aventuras. Por volta de 1977, auge do regime militar, meu pai percebeu meus seios sob a blusa branca da escola e o médico me convenceu a parar com a terapia hormonal (ou hormonização).

Naquela época, não havia informação e eu não compreendia o que ocorria comigo.  Por me sentir atraída por mulheres, tudo parecia ainda mais fora dos padrões. Aquiesci em continuar levando uma vida dupla, sem jamais demonstrar ao mundo como me sentia. Terminei o colegial, a faculdade, trabalhei, morei fora, construí uma vida. Já adulta, levava para um motel minha mala secreta de roupas, salto alto e maquiagem, me produzia e ia pra uma balada “GLS” - a visibilidade “T” sequer existia no meio. No final da noite, voltava ao motel para me tornar novamente apresentável ao meu mundo familiar. Que trabalho!

Somente com o advento da internet é que descobri existirem outras pessoas como eu. Conheci um grupo do Brazilian Crossdressers Club com muitos homens héteros casados, alguns dos quais saíam “em femme” (vestidos de mulher) com as esposas para festas, reuniões, encontros. “Encontrei o meu lugar no mundo!”, pensei. Comecei a estudar sobre gênero e sexualidade e a conversar com especialistas. Certa vez o psicólogo e sexólogo Oswaldo Rodrigues me disse: “Orientação sexual é uma coisa, identidade de gênero é outra”.

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Lembro do espanto maravilhado que senti quando aquelas palavras ressoaram em mim. “Então eu posso ser quem sou!”. Mas eu ainda acreditava no discurso crossdresser de “homens héteros que gostam de se vestir de mulher”. Nos anos seguintes, muitas coisas mudariam para sempre essa minha visão. Passei a conviver com travestis e mulheres transexuais no Centro de Referência da Diversidade, onde discutíamos principalmente questões médicas e políticas.

Fui percebendo também que quanto mais eu deixava os cabelos crescerem, me depilava, me montava e saía às ruas... mais eu queria fazer exatamente isso. “Só um pouco de hormônios”, eu dizia para minha esposa. “Só furar as orelhas, homens também podem. Só vou limpar um pouco as sobrancelhas...”. Até que entrei de terno e gravata em uma loja, com os cabelos presos em um longo rabo, e a balconista perguntou: “O que a senhora deseja?”.

Assim como eu, muitas amigas crossdressers do clube também iam avançando aos poucos. Algumas inventavam uma natação como desculpa para se depilarem, várias tomavam hormônios de vez em quando. Tinha até uma médica que injetava soro fisiológico nas mamas quando se “montava”. Uma das minhas madrinhas crossdresser fez a cirurgia de redesignação sexual alguns anos mais tarde. Havia quem só não passava de certos limites por causa da vida pessoal “de sapo”, como se chamavam no “estado masculino”.

Depois de estudar profundamente pesquisas acadêmicas produzidas no mundo inteiro e de conviver com travestis, mulheres transexuais e crossdressers, escrevi um artigo sobre esse tema. Cheguei à conclusão de que não existem diferenças entre crossdressers e travestis, exceto pela orientação sexual. Os relatos de infância, os impulsos e desejos são muito mais do que semelhantes. O que os distingue sempre são os relatos sobre seus objetos de desejo. Crossdressers comumente dizem: “Gosto tanto de mulher que resolvi me tornar uma”.

Existem travestis bissexuais, embora muitas não contem para as demais por medo de discriminação. Pelo mesmo motivo, muitas crossdressers permanecem casadas com mulheres, ainda que desejem homens. Não posso afirmar que toda crossdresser é uma pessoa trans, assim como há travestis que só mudaram o corpo para trabalhar na prostituição. Ser uma pessoa transgênero ou seja, ser crossdresser, travesti, transexual, não binário, queer, gender fucker, Hijra, Muxe, Lady boy, homem trans... não é algo que se faz.

Se é uma mera performance, como no caso das Drag Queens, trata-se de uma atuação, ainda que permanente. Identidade de gênero é algo que se leva dentro, que nos constitui enquanto pessoa, ainda que não a mostremos a ninguém e mantenhamos uma aparência para o mundo distinta do que sentimos. Como eu fiz por tanto tempo. Não mais, nunca mais! Hoje digo sem medo que sou uma travesti lésbica, oras!

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