Foto: Pexels / Anete Lusina Descrição da imagem: Uma mulher negra, de boca fechada, com a cabeça levemente virada para o lado com o queixo em direção ao ombro, com os olhos semi abertos olhando para baixo em direção ao ombro.

Corpo e estética negra: reflexões sobre sexualidade

Por que perseguir o padrão de beleza europeu pode levar à autoestima frágil e relacionamentos abusivos

Por Marília Zanini*

Sabemos que a sexualidade é vivenciada em diferentes esferas da vida. Mas, para iniciarmos uma discussão sobre sexualidade, precisamos conversar sobre corpos - em especial, os corpos negros e pretos e suas estéticas.

“Marília, por que conversar sobre corpos negros e pretos em específico?”, você me pergunta. Eu te respondo: porque existem grandes diferenças entre as vivências estéticas de corpos negros/pretos e corpos caucasianos (descendentes de europeus). Podemos perceber isso quando olhamos para duas pessoas do mesmo gênero, idade e classe social, uma negra e uma caucasiana, e automaticamente classificamos a caucasiana como mais próxima do padrão de beleza instaurado pelos colonizadores europeus e que é vigente até os dias de hoje.

Então como a estética e os corpos negros/pretos se relacionam com a sexualidade?

Apesar de o Brasil ser um país “miscigenado”, as estéticas e os conceitos de beleza podem ser muito diferentes entre pessoas pretas/negras e caucasianas. Por muito tempo houve (e ainda há) um esforço da comunidade preta/negra em entrar em conformidade com as estipulações impostas pelo padrão de beleza europeu - mesmo que seja impossível.

Pelas reflexões do historiador Rhaul de Lemos Santos no artigo “O corpo negro: a estética como forma de resistência” (2018), observa-se que esse esforço de adequação, de tornar-se aceitável e palatável para a sociedade racista, ocorre por diversos motivos e de diversas formas. Por exemplo, a estética. Isso pode ser representado pelo alisamento de cabelo, por mantê-lo curto ou até mesmo raspado, pelo uso constante de laces ou megas, por tratamentos para clareamento de pele e, inclusive, pela escolha das roupas. Essa tentativa de adequação geralmente é reflexo de uma autoestima frágil, que funciona como instrumento de controle da sociedade racista. Assim faz com que o povo negro/preto seja mais suscetível a sujeitar-se a relacionamentos em condições de abuso, por exemplo. 

A problemática que isso traz para a expressão da sexualidade é tremenda e pode aparecer na personificação dos estereótipos colocados sobre os corpos de pessoas negras/pretas: a mulata, mucama, o homem negro/preto violento e com alta libido etc; bem como a noção de que essas pessoas não são “dignas” de afeto - principalmente em público. A filósofa ativista Lélia Gonzales exemplifica essa questão dos estereótipos no artigo “Racismo e sexismo na cultura brasileira” (1984). Ela argumenta que tanto a mulata quanto a mucama são a mesma mulher em contextos diferentes e, em ambas as situações, não é colocada em uma posição afetiva. Já Santos (2018) foca seu olhar no homem negro e suas escolhas estéticas, mas há semelhanças entre os pensamentos desses intelectuais... E não houve tantas mudanças entre 1984 e 2018.

Qual a primeira (de muitas) saída(s)? Empoderamento. Simples? Nem um pouco. Mas o olhar empático para o corpo e a estética que a cultura negra proporciona pode ser um passo inicial. Não à toa a transição capilar de mulheres negras, principalmente, costuma ser a porta de entrada de uma grande ressignificação de suas negritudes, trazendo um sentimento de pertencimento a essas pessoas que – até então - estavam “ilhadas” em seus corpos.

Este sentimento de pertencimento é fundamental para a construção de identidade e autoestima das pessoas negras/pretas. Mas para que esse sentimento de pertencimento possa se instaurar é necessária a construção da representatividade: vendo-se na outra pessoa e tendo exemplos de que ela pode ser atrativa e digna de afeto que construímos a nossa “identidade afetiva”.

Através disso tudo é que podemos começar a conversar sobre a construção de expressões de sexualidade saudáveis em pessoas que têm corpos negros/pretos. Vendo-se dentro do conceito europeu e renascentista de Belo e desconstruindo o padrão de beleza vigente que encontraremos saídas saudáveis para o que nos aprisiona.

*Marília Zanini é psicóloga e sexóloga, profissional da perinatalidade e parentalidade e futura doula. Atende adultos e casais, se interessa por questões raciais, de gênero e de sexualidade.

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