A foto mostra uma mulher branca, de cabelos na altura do queixo, com as mãos no rosto e os cotovelos apoiados em uma mesa. Ela tem uma expressão cabisbaixa.

Micromachismo mina a autoconfiança sem que as mulheres percebam

Entenda o que são atitudes machistas naturalizadas no dia a dia – e como elas também podem ser violentas

Por Ana Luiza Fanganiello

Quando alguém diz que uma mulher deveria se vestir de um jeito “mais feminino” ou se comunicar de forma “delicada”. Quando perguntam se uma mulher “está na TPM” apenas porque ela foi assertiva. Quando supõem que a mulher não sabe ou não se interessa por um assunto “de homem” (de futebol à economia global)...

Esse conjunto de comentários agressivos - mas naturalizados - contra as mulheres tem nome: micromachismo. O prefixo “micro” não se refere ao tamanho violência ou impacto provocado nas vítimas, mas ao fato de serem quase invisíveis na nossa sociedade. É sobre isso que conversamos a seguir com a psicóloga e sexóloga Ana Luiza Fanganiello.

- O que significa o termo “micromachismo”?

ANA – Essa expressão foi cunhada em 1991, na Espanha. Ela fala sobre os pequenos atos machistas que as mulheres sofrem todos os dias e ainda são considerados “normais”. Essas atitudes nocivas não são exclusividade dos homens: muitas vezes as mulheres adotam esse comportamento em relação a outras...

- Você pode dar alguns exemplos?

ANA – Quando diminuem a noção de potência ou vivência de uma mulher dizendo coisas como: “Você não dá conta disso, me dá aqui que eu resolvo mais rápido!”; “Você não sabe dirigir direito, eu dirijo pra você” (ou a chave está sempre na mão do homem e fica implícito quem vai dirigir); “Você trabalha muito, quem cuida dos seus filhos?” (sem presumir que um homem/pai seja cuidador). Não é algo que um homem ouça, né?

- Então são comportamentos mais difíceis de identificar, mas oprimem bastante se considerarmos o acumulado de uma vida inteira... Qual o impacto desse micromachismo no emocional de uma mulher?

ANA – São comportamentos muito entranhados na nossa cultura e muitas vezes a gente não percebe o que está sendo dito ou feito. Eles também vêm disfarçados de “eu só estou cuidando de você” e “só estou falando isso para te ajudar”. Isso vai minando a autoconfiança, a percepção de mundo, o empoderamento... a longo prazo pode gerar ansiedade, depressão, questões psíquicas importantes. A mulher vai sendo oprimida e achando que a outra pessoa (que está te diminuindo) tem razão.

- Os homens se dão conta disso ou “só” reproduzem o que aprenderam?

ANA – Muitos “só” reproduzem porque é algo muito presente na nossa sociedade, não percebem o tanto que o micromachismo pode ser nocivo. Mesmo homens que se dizem desconstruídos, que não são aqueles machistas óbvios e “de carteirinha”, também podem ter essa atitudes no dia a dia.

- Como as mulheres podem se proteger e combater o micromachismo?

ANA – Acho que o primeiro passo é começar a se questionar, perceber como você está se sentindo em uma determinada situação [de micromachismo] ou de que forma um comentário te afetou. E então conversar e questionar a outra pessoa [que teve o comportamento machista] para entender qual é a sua percepção de mundo.

*Foto: Pexels / Engin Akyurt

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