Uma mulher branca de cabelos loiros compridos está deitada sobre um colchão no chão, nua e com as pernas flexionadas. Ela segura um cigarro próximo à boca com uma das mãos. Há um móvel com uma televisão antiga ligada e, sobre ele, duas garrafas.

Como identificar (e tratar) a compulsão sexual

“Vício” em sexo ou pornografia pode gerar prejuízos graves para saúde, carreira e relacionamentos

Por Marina Zaneti

Em tempos de tamanha procura por tratamentos para baixo desejo sexual, talvez o “vício em sexo” cause inveja em pessoas que “gostariam de ser mais taradas”. Existe uma visão equivocada entre um elevado - mas saudável - interesse erótico e uma doença que leva à perda de controle da própria sexualidade. Antigamente conhecida como ninfomania (em mulheres) e satiríase (em homens), a compulsão sexual abrange fantasias, impulsos ou comportamentos sexuais que resultam em prejuízo importante no âmbito social, profissional e nos relacionamentos.

Filmes como "Shame" (2011) e "Ninfomaníaca" (2013) retratam bem esse quadro compulsivo. Embora cada pessoa tenha um grau de necessidade sexual e não seja possível estipular um padrão de “normalidade” com base na quantidade de vezes em que se tem vontade de praticar sexo ou masturbação, por exemplo, dá para analisar de forma mais ampla como esse desejo ou comportamento sexual impacta sua vida. O excesso de apetite sexual passa a ser um problema de saúde quando a pessoa perde o controle sobre seus impulsos.

No dia a dia, a necessidade de sexo faz com que ela perca compromissos importantes, se afaste da família e das amizades, dedique muito tempo e energia em busca de experiências sexuais ou de estímulos virtuais como a pornografia. É muito comum a compulsão sexual estar relacionada ao consumo de substâncias psicoativas (álcool e outras drogas) e transtornos psiquiátricos. Os mais comuns são depressão, ansiedade, transtornos de personalidade e bipolaridade - especialmente na sua fase de mania. Neste último, o sintoma de hipersexualidade costuma gerar busca incessante por atividade sexual. 

As causas da compulsão sexual são multifatoriais: história de vida, primeiras experiências sexuais, relações parentais, referências de sexualidade (como excesso de pornografia desde muito cedo), dificuldades em estabelecer vínculos afetivos, abuso sexual, físico e/ou emocional. O trauma "embota" o hemisfério direito do cérebro, que controla o insight, a regulação da emoção e a capacidade de conexão interpessoal.

Entre as consequências negativas do quadro estão os comportamentos de risco, a constante troca de parcerias sexuais (“promiscuidade”) e as infecções sexualmente transmissíveis, incluindo sífilis e HIV. Portanto, se o desejo sexual não resulta em descontrole, não atrapalha a vida e não causa angústia, não há motivos para se preocupar. Já o tratamento da compulsão sexual deve incluir consultas psiquiátricas e psicoterapia. É imperativo identificar e acolher essas pessoas que não apenas se sentem deslocadas por seu excesso de interesse sexual, mas também passam por intenso sofrimento.

Os estudos sugerem abordar questões sobre a família de origem, investigar o apego (vinculação emocional) e trabalhar a resolução de traumas (quando há histórico de abuso). Além disso, é preciso focar na prevenção, promover a reprogramação neuroquímica, treinar habilidades sociais e relacionais. Assim como um iceberg, o comportamento sexual geralmente é apenas uma pontinha do que conseguimos observar. Por baixo estão inúmeros traumas, conflitos e sentimentos de inadequação. Prazer e dor muitas vezes caminham juntos e, nem sempre, de maneira saudável. 

Fonte: Riemersma, J., & Sytsma, M. (2013). A new generation of sexual addiction. Sexual Addiction & Compulsivity20(4), 306-322.

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