Uma mulher branca veste está deitada de bruços em uma cama com as pernas desnudas para cima.

“Pack do pezinho” revela como fetiche por pés é comum

À venda na internet, pacotes de fotos fazem sucesso entre podólatras. Entenda se a atração sexual por essa parte do corpo é normal

Por Rafael Zeni

A atração sexual por uma parte específica do corpo é o fetiche mais prevalente (30%), de acordo com uma pesquisa da Universidade de Bologna. E a maioria dessas pessoas se interessam por pés e objetos relacionados a eles – como sapatos, meias etc. Um levantamento do famoso portal de pornografia PornHub confirma a crescente popularidade da podolatria: a geração Z (pessoas nascidas entre 1990-2010) busca 68% mais vídeos de pés do que as demais.

Não à toa tem gente ganhando dinheiro na internet com venda de “pack do pezinho”, pacotes de imagens dos próprios pés, em plataformas como o Only Fans. Uma breve pesquisa no Google e em redes sociais como Instagram, Facebook ou Twitter revela muitos sites, grupos e comunidades com milhares de seguidores que adoram #footfetish, #feetfetish e hashtags derivadas. É possível que você conviva com podólatras e nem saiba...

O que é podolatria?

A podolatria, intensa atração e interesse sexual por pés, é tão antiga que pode ser reconhecida inclusive nos contos de fadas... A Cinderela encanta o príncipe durante o baile, mas é o delicado sapatinho de cristal que mexe com a cabeça dele. Esse fetiche consiste em sentir prazer sexual ao ver, cheirar, lamber, beijar, acariciar, ser pisado/a pelos pés da parceria, mesmo sem tocá-los ou fora de um contexto sexual. 

A excitação pode incluir a forma dos pés, o tamanho, os dedos, as solas, o uso de acessórios e vestuários (como meias e sapatos de salto alto), interações sensoriais (de fazer cócegas a sentir chulé)... A preferência por pés bem cuidados não é unânime: há quem goste mais de pés sujos, ásperos e com cheiro de suor.

Dois estudos com pessoas cisgênero indicam que o fetiche por pés é mais comum entre homens do que mulheres. Eles representam 80% dos casos de podolatria, segundo o renomado Instituto Kinsey (Estados Unidos). Na Bélgica, em um levantamento com mais de mil pessoas cis entrevistadas, 17% dos homens e 4% das mulheres apresentaram forte interesse sexual por pés.

É normal ter tesão por pés?

A podolatria é a forma mais comum de parafilia, ou seja, uma preferência sexual persistente por objetos ou partes do corpo não genitais que assume a função erógena primordial para a pessoa fetichista. Na prática, o que isso quer dizer? O fetiche torna-se um transtorno e assume caráter patológico quando tem consequências negativas para a própria pessoa ou para outras, e/ou quando é satisfeito de forma não consensual.

Enquanto os pés forem um dos elementos eróticos da relação, como parte das preliminares, o fetiche é considerado inofensivo. Mas, ao virar uma necessidade e a pessoa só conseguir se excitar ao ver ou tocar os pés, pode configurar um transtorno parafílico. Excitar-se publicamente ao ver os pés de uma pessoa desconhecida também. Se você desconfiar que o fetiche está prejudicando a sua vida ou o seu relacionamento, busque orientação com profissionais especialistas em sexualidade – por exemplo, terapeutas sexuais.

O que explica esse fetiche?

Não existe um consenso científico sobre o que leva uma pessoa a ter fetiche por pés. Embora existam muitos trabalhos sobre o assunto, as conclusões são frequentemente consideradas especulativas. Algumas teorias apontam o fetiche como um trauma; outras afirmam que a área do cérebro que é ativada por estímulos nos pés está próxima à área relacionada aos genitais.

O pai da psicanálise Sigmund Freud afirmava que o desejo por uma parte específica do corpo pode ser a substituição pela vontade do todo. Em outras palavras, o interesse sexual por pés pode representar um desejo não-correspondido por alguém do passado. Também é comum que a podolatria seja associada ao prazer de submissão: curvar-se aos pés de uma pessoa, idolatrando-a e idealizando-a. Da perspectiva do comando, o prazer é narcísico e autocentrado:  ser adorado/a, desejado/a.

Mas por que é necessário justificar uma prática que pode ser saudável, prazerosa e sem ligação com um fator psicopatológico? Meu questionamento recai sobre os possíveis valores morais que permeiam quaisquer práticas sexuais para além do papai-mamãe. A maioria das pessoas que encontram nos pés um motivo acrescido de excitação e prazer sexual vive bem com o seu fetiche e consegue integrá-lo de forma positiva e consensual na sua vida sexual.

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