Um homem e uma mulher negros estão sentados em uma mesa. Eles se olham enquanto levam suas taças de vinho à boca.

Como falar de fantasias sexuais com a parceria amorosa

Superar o medo do julgamento alheio é essencial para construir intimidade erótica. Você teria maturidade para ouvir que a sua parceria deseja sexo a três, por exemplo?

Por Marina Zaneti*

Não tenho dúvidas de que falar sobre sexo, sentimentos, emoções, prazeres e desprazeres é essencial para um relacionamento afetivo-sexual de qualidade. Mas compartilhar sobre fantasias sexuais com a nossa parceria, por exemplo, não é uma tarefa fácil: somos seres dinâmicos, nem sempre estamos disponíveis para mergulhar em questões mais complexas e lidar com universos particulares – o nosso e o da outra pessoa. Isso exige, antes de qualquer coisa, maturidade e muita paciência.

No texto  , expliquei que elas estão relacionadas à história de vida da pessoa, seu desenvolvimento psicossexual, a   recebida (ou não), as primeiras experiências sexuais (posteriores idem) etc. Depois, abordei aqui no blog da LUVV sobre as  – e vimos que as pesquisas acadêmicas mais recentes sobre o assunto não encontram tanta distinção entre o que excita os dois gêneros.

Agora quero ajudar você a dar mais um passo rumo à intimidade erótica, pilar de relacionamentos saudáveis e plenos. Como falar sobre fantasias sexuais com quem você ama e/ou tem relações sexuais?

Primeiro precisamos admitir que expor uma faceta desconhecida (como o tesão por sentir dor no sexo ou ver a parceria transando com alguém) pode ser excitante e incrível, mas também muito amedrontador. Como psiquiatra e sexóloga, sou testemunha do medo que as pessoas têm de serem julgadas e mal interpretadas por suas fantasias sexuais. Elas temem que a revelação gere conflitos conjugais, por exemplo. É compreensível que resistam a compartilhar o que desejam sexualmente e necessitem de um vínculo de extrema confiança para tanto...

Vivemos em uma sociedade machista, falocêntrica (centrada no pênis) e heterocisnormativa (que considera normais apenas as pessoas cisgêneros e heterossexuais). Por isso a sexualidade feminina é  , o  é – erroneamente - sinônimo de   ou promiscuidade, e por aí vai. A lista de estereótipos a respeito das condutas sexuais é extensa. Portanto não dá para negar que quem fala sobre as próprias fantasias pode ficar em uma posição bastante vulnerável.

Sugiro que essa conversa íntima aconteça dentro de um contexto, e não de forma “banalizada”. Aqui vão algumas dicas práticas: entenda melhor se existe uma abertura para falar sobre este tema com a sua parceria; conte com quais elementos você gosta de se   - de  a fantasias sexuais; se houver receptividade, proponha a(s) fantasia(s) gostaria de realizar. Deixe a pessoa muito à vontade para negar caso não se interesse ou se sinta desconfortável. Talvez ela precise de um tempo para assimilar a ideia, avaliar e quem sabe até topar.

Além disso, é importante entender que as fantasias sexuais são benéficas para a vida sexual do indivíduo e do casal mesmo quando não são realizadas literalmente. Muitas vezes elas ficam - muito bem obrigada! - apenas na imaginação. Aliás, colocar algumas fantasias em prática pode ser catastrófico do ponto de vista emocional e físico. Exemplo disso é o ménage a trois (“sexo a três” em francês).

Por um lado, ver a sua parceria transando com outra pessoa talvez configure a melhor experiência da sua vida. Por outro, a situação dos seus sonhos eróticos pode gerar ciúmes, sofrimento, sentimentos de rejeição, nojo etc. Se você estiver consciente dos riscos de tornar a fantasia sexual um fato consumado, ótimo. Do contrário, pense com calma e considere as possíveis consequências de tirá-la da imaginação (espaço muito mais seguro que a vida real).

Inclusive porque certas fantasias sexuais envolvem elementos que, quando colocados em prática, podem causar dor ou sofrimento a uma ou mais pessoas, como no  . Consentimento e diálogo são fundamentais sempre. Se você tiver dúvidas ou angústias relacionadas a uma fantasia sexual, procure uma pessoa psicóloga ou psiquiatra com especialização em sexualidade para conversar e discutir como lidar com a questão – no próximo texto, vou escrever sobre quando a fantasia sexual vira doença e os tipos de tratamento.

Uma alternativa interessante seria explorar um aspecto da fantasia sexual para adaptar à realidade do relacionamento, uma espécie de “meio-termo” entre os seus desejos e os seus limites - da parceria amorosa também. Imaginemos uma pessoa com vagin  que fantasie com dupla penetração (simultaneamente na vagina e no ânus). Ao invés de envolver uma terceira pessoa na relação sexual, dá para concretizar parte da fantasia usando um   junto com a parceria que penetra (com pênis, cinta-peniana ou outro vibrador).

Ampliar o prazer envolve ampliar a  , com muito respeito a si e à parceria. Falar de fantasias sexuais é complexo porque descortina valores e expectativas, crenças e preconceitos. Mas é também a possibilidade de revelar ou acessar o que a pessoa tem de mais único - uma construção riquíssima para a sexualidade do casal. Enfim, é a magia de estar com alguém para além de estereótipos.

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