Close de uma mulher branca com olhos fechados, lábios semiabertos e fios de cabelos sobre o rosto.

Como é o orgasmo feminino – e as diferentes formas de chegar lá

Spoiler: a dificuldade de gozar com penetração é mais comum do que você imagina...

Por Teresa Embiruçu*

Uma das respostas mais difíceis vem da pergunta: “O que é orgasmo para você?”. Seria capaz de descrever o que sente e como o seu corpo se comporta?

Para pessoas com pênis, o orgasmo não deixa muitas dúvidas porque praticamente coincide com a ejaculação. Há um respaldo visual sobre o que acontece, quando acontece e para que acontece. Sabe-se ainda que naquele líquido ejetado existem milhões de espermatozoides. Existe aí uma justificativa social, política e até econômica para se valorizar o orgasmo: a chance de uma gravidez.

O orgasmo das pessoas com vulva e vagina levou muito tempo para ser motivo de estudo. A sexualidade dita “feminina” (que popularmente considera apenas as mulheres cisgênero) sempre foi considerada misteriosa e complexa. Provavelmente pelo orgasmo feminino não ser tão visível ou por não ter importância para a reprodução humana.

Apenas na década de 1970, a respeitada dupla de pesquisadores da sexualidade humana William H. Masters e Virginia E. Johnson defendeu a ideia de que a mulher tinha direito ao orgasmo! Então é natural que ainda hoje eu receba no consultório de ginecologia tantas dúvidas a respeito do prazer feminino e precise explicar sobre a importância do autoconhecimento.

“Como saber se cheguei ao clímax?”

O orgasmo é a linha de chegada. Existem diferentes formas de chegar lá, tanto no sexo quanto na masturbação. Mas para que ele aconteça, o desejo sexual e a excitação precisam atingir um ponto máximo. Assim, o corpo que deseja se prepara para o sexo: o canal vaginal lubrifica, o clitóris aparece (já reparou que ele sai do “capuz”?), os lábios vaginais ficam mais abertos porque chega mais sangue ali, os mamilos ficam eretos, o corpo começa a suar, o coração acelera e a respiração fica mais ofegante.

Aí, sim, vem a descarga dessa tensão sexual, que pode durar entre 20 e 40 segundos. Algumas pessoas sentem umas “tremidinhas” bem na entrada da vagina. É nesse momento que deixamos de ouvir os sons, perdemos os sentidos e existe uma grande entrega. Não à toa alguns autores mais poéticos descrevem o orgasmo com a expressão francesa “La petite mort” (ou “uma pequena morte”, na tradução livre).

Tipos de orgasmo: a “disputa” entre clitóris e vagina

O orgasmo basicamente pode ter duas portas de entradas: clitóris e/ou vagina. Aqui vale dizer que o clitóris é muito maior que aquela pontinha no alto da vulva – recoberta por uma pequena pele parecida com a que recobre o pênis. O estímulo direto dessa “cabeça” do clitóris pode ser fonte de grande prazer. Aliás, esse é o único órgão do corpo humano que existe só para isso...

Mas, como antecipei, o clitóris é mais do que a gente enxerga ou sente por fora. O restante do seu “corpo” está interno: ele se bifurca, envolvendo as paredes da vagina, enquanto a base fica na área anterior do canal vaginal (aquela que está voltada para o umbigo). Ali estaria localizado o famoso e tão procurado ponto G. Por questões anatômicas e de autoconhecimento, algumas pessoas conseguem acessar essa área mais inervada (seja com a penetração de dedos, pênis ou acessórios sexuais) e chegar ao orgasmo.

 

Impressão em 3D do clitóris mostra que o órgão sexual é muito mais do que aquela pontinha no alto da vulva (Foto: Divulgação/Clitorínea)

 

Se existe diferença entre o orgasmo clitoridiano e o orgasmo vaginal? Bem, ambas levam ao mesmo ponto final. Ao invés de encanar com coisas como “Por que só consigo gozar com clitóris e não com a penetração?”, que tal experimentar o estímulo das duas vias ao mesmo tempo? Uma dica é tentar com a penetração no canal vaginal e um vibrador diretamente na parte externa do clitóris. [nota da editora: sugiro estes bullets, cápsulas vibratórias discretas].

Às vezes é mais fácil chegar ao orgasmo sozinha. Na masturbação, a tendência é fazer só o que se gosta, no ritmo que se gosta, livre de qualquer ansiedade de performance ou de obrigação de agradar outra pessoa.

Orgasmo sem toque nos genitais?

O maior responsável por toda essa descarga de prazer e bem-estar chamada orgasmo é o cérebro. Por isso, existem situações em que ele pode acontecer sem estímulo direto nos genitais. Enquanto a pessoa está dormindo, por exemplo. Para se ter ideia, a sensação corporal durante um sonho erótico pode ser comparada àquela que sentimos na relação sexual. Nesse sentido também é possível afirmar que o orgasmo tem duas vias - a fisiológica e a psicológica.

E olha só: pessoas que tiveram lesão medular relatam níveis de orgasmo com diversos estímulos em zonas erógenas como mamilos, orelhas, pescoço e outras partes do corpo (afinal, pele é o maior órgão do corpo humano).  Então outra dualidade interessante quando pensamos no ápice do prazer seria orgasmo coital versus não-coital. Aqui os termos vêm de “coito”, que significa “ato sexual”.

O orgasmo ainda sofre o duelo entre mais duas vias: o real e o pretendido. O orgasmo pretendido é aquele visto nas cenas de filmes, séries, novelas e até mesmo aprendido na pornografia - com gritos, gemidos, unhadas, mordidas, orgasmos múltiplos e ejaculação feminina (conhecida como “squirt”). Já o orgasmo real é individual e sentido pela mesma pessoa de forma diferente dependendo da situação. Portanto, não dá para comparar: cada orgasmo é uma experiência única.

Importante também lembrar que nem toda relação sexual, com ou sem penetração (de pênis, dedo e/ou qualquer outro objeto) termina em orgasmo. Mas todo o ato sexual deve causar uma sensação de prazer ou de satisfação - muitas vezes pela intimidade emocional, pelo aconchego e pelo vínculo. Enfim, a vontade de fazer sexo pode ser simplesmente pelo prazer em se ter prazer, independente da via.

* Teresa Embiruçu é médica ginecologista, obstetra e sexóloga do Coletivo Ser e do Projeto Afrodite da UNIFESP.

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