Um homem transgênero branco e de cabelos curtos está sentado em frente a uma janela, com o tronco desnudo e uma expressão pensativa. Ele cobre os seios com braços e um tecido vermelho.

Como é a cirurgia para retirada dos seios em homens trans

A mamoplastia masculinizadora contribui com a validação social da identidade de gênero – ou seja, que as pessoas sejam reconhecidas da forma como se enxergam no mundo

Por Theo Alarcon

Por causa dos seios com que nasci, passei muitos anos sem me sentir confortável até mesmo para ir ao supermercado. Tinha crises de ansiedade diante de qualquer possibilidade de sair de casa e demorava horas para de fato conseguir sair. Me identifico como trans masculino não binário e prefiro ser chamado por pronomes masculinos (ele/dele), mas independentemente da minha voz mais grossa, da roupa que estava usando ou do nome (Theo) com o qual me apresentava... as pessoas sempre olhavam primeiro para o meu peito para definir como me tratariam.

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Em agosto passado, fiz a mamoplastia masculinizadora, cirurgia para a retirada total dos seios e reestruturação do aspecto peitoral. Desde então é raro errarem a forma de tratamento. Quando acontece de se referirem a mim no feminino, isso já não me afeta como antes porque não estou mais conectado a uma característica de gênero marcante - que sempre foi motivo de incômodo na minha vida. Mas é importante ressaltar que cada experiência trans é única: o impacto pessoal do estereótipo tem peso e relevância subjetivos.

Mamoplastia masculinizadora

Esse procedimento ficou popularmente conhecido como “mastectomia trans” por associação com a retirada de seios de pessoas em tratamento contra o câncer de mama. Mas, na mamoplastia masculinizadora, os mamilos também são remodelados para que o peitoral tenha uma aparência reconhecida socialmente como masculina. Geralmente quem recorre a essa cirurgia são homens trans, trans masculinos e não binários. Algumas pessoas trans também buscam por este procedimento, seja por maior facilidade de acesso ou identificação com os resultados. Ou seja, nem todas as pessoas trans buscam por um aspecto marcadamente masculino em seus corpos.

Seios volumosos são características marcadas socialmente como femininas e essa leitura social não corresponde à identidade de algumas pessoas. Além disso, a motivação para a cirurgia pode ser o incômodo físico pelo volume ou pela aparência dos seios. Ou seja, sua existência se torna fonte de desconforto intenso, prejudicando a convivência social devido a experiências traumáticas de invalidação de identidade.

É difícil que pessoas cisgêneros tenham total compreensão do que é ter sua identidade invalidada. Pense em alguém de quem você gosta muito, mas nunca lembra o seu nome, te chama pelo nome de outra pessoa e não dá atenção ao que você diz. Essa situação é desagradável, não? Pessoas trans costumam passar por isso constantemente com quase todas as pessoas.

Burocracias: como fazer e quanto custa?

Para a realização da mamoplastia masculinizadora gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é necessário ter 21 anos ou mais, além de acompanhamento multidisciplinar em um ambulatório trans há pelo menos um ano - infelizmente esse atendimento especializado não está disponível em todas as cidades, mas nas principais regiões metropolitanas. Após iniciar o acompanhamento e expressar a necessidade da retirada dos seios, a pessoa entra em uma fila de espera que pode durar meses ou anos.

Já a liberação para a cirurgia através do convênio médico deve ser providenciada por rede credenciada à operadora ou nos termos do sistema de reembolso. Também exige laudo médico e psicológico. Caso seja negada pelo plano de saúde, é possível entrar com um processo jurídico para a cobertura do procedimento. No sistema particular, a cirurgia está permitida a partir dos 18 anos. As exigências de laudos variam de acordo com o médico e o caso em específico. Atualmente o valor da mamoplastia masculinizadora varia entre R$ 10 mil e R$ 19 mil, dependendo da experiência profissional e da técnica utilizada. Além disso, é preciso considerar os custos com hospital e medicamentos, entre outros.

O método mais adequado para a cirurgia é definido de acordo com o volume e as condições de flacidez da pele. Entre as técnicas mais comuns estão a “periareolar” (preferida por pessoas com volume mamário reduzido) e a chamada de “sorriso” (nos casos de mamas de tamanho médio, grandes ou com pele flácida). Há risco de intercorrências como sobras de pele e perda total dos mamilos.

Pós-operatório: vida sem os seios

A recuperação exige repouso, restrição do sol e de movimentos dos braços por alguns meses. É possível realizar atividades básicas do dia a dia após as primeiras duas semanas. Aliás, logo após a cirurgia, é importante se mexer aos poucos para evitar complicações por trombose. Movimentos longos e com qualquer peso são restringidos por um período maior para garantir uma boa cicatrização e evitar danos ao enxerto do mamilo. Todo esse processo requer acompanhamento médico para orientação sobre os cuidados com a região até a alta completa.

A terapia também é fundamental neste processo de busca e alcance da retirada dos seios. Qualquer procedimento cirúrgico pode trazer impactos psicológicos, como episódios depressivos pós-operatório. Além disso, as sessões de psicoterapia contribuem para a compreensão dos resultados físicos, pois existe a perda parcial ou total da sensibilidade na área operada. Boa parte dessa sensibilidade é recuperada com o tempo, mas não será mais a mesma de antes da cirurgia. Percorre-se um caminho subjetivo muito mais profundo que as camadas atingidas pelo bisturi.

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