Uma mulher negra segura uma mexerica sem casca com as duas mãos.

Autoestima vaginal: o que você acha da sua vulva afeta o seu prazer

Vergonha de ter “vagina larga” e lábios internos “grandes” pode levar a dor no sexo e dificultar os orgasmos

Por Teresa Embiruçu

"Como você consegue ficar vendo ‘isso’ o dia todo?" e "Que ‘negócio’ feio!" são frases que ouço no meu dia a dia como ginecologista. É assim que muitas pacientes se referem ao órgão genital... sequer chamando-o por seu nome próprio: VULVA (externa) e VAGINA (interna). Durante o exame, tento mostrá-la com ajuda de um espelho, mas várias desviam o olhar. Talvez por vergonha de expor nos mínimos detalhes uma parte tão íntima do corpo. Ou pela ideia socialmente construída de que vulvas são “feias, sujas e fedidas”. Já pensou como essa percepção impacta o prazer e a saúde sexual?

Padrão de beleza íntima

A autoimagem genital é a forma como você enxerga a sua própria vulva e vagina. Essa autodefinição surge a partir do que se vê (na mídia ou em outras pessoas), se ouve (comentários sobre o que é bonito ou não em um genital), das experiências sociais e sexuais (como uma parceria interagiu com essa parte do seu corpo, por exemplo). Como você se relaciona com a sua? Que adjetivos atribuiria a ela?

Não existe um padrão de beleza da vulva, depende do contexto histórico e cultural. Antigamente os pelos pubianos eram retirados apenas por profissionais do sexo. Hoje a depilação é praticada pela maioria das pessoas com vulva com o argumento de que ela “fica mais atraente” (e exposta também!). Em países ocidentais, os lábios vaginais internos menores são mais "valorizados", enquanto em países orientais os lábios internos grandes e em formato de borboleta são considerados mais bonitos.

Então, quando entram no meu consultório em busca de “uma vulva mais bonita”, tenho o cuidado de perguntar o que isso significa e quantas vulvas aquela pessoa já viu. Recorro à imagem da obra de arte “The Great Wall of Vagina”, do britânico Jamie McCartney, que traz 400 vulvas diferentes moldadas em gesso. Assim, pelo menos, dá para ter uma dimensão da diversidade anatômica e (quem sabe?) entender que não há nada de errado com a dela...

Causas da baixa autoestima genital

O que leva uma pessoa a achar sua vulva ou sua vagina feia? Alguns fatores podem favorecer uma autoimagem genital negativa: idade, não estar em um relacionamento afetivo e sexual, número de partos, infertilidade (dificuldade para engravidar), cirurgias genitais, disfunções dos músculos do assoalho pélvico (os prolapsos de útero, bexiga, intestino que são sentidos como "bolas na vagina"), história de abuso sexual.

Outro ponto de gatilho forte para a insatisfação com a própria vulva é a comparação com as vulvas mostradas nas mídias sociais e nos filmes pornôs: vulva rosada e “discreta” (lábios internos pequenos e simétricos). As pessoas com pênis também não escapam dessa expectativa irreal que vem da pornografia: queixam-se do tamanho e da flacidez do pênis (pequeno ou fino). 

Angústia entre gerações

Jovens se preocupam mais com a aparência da vulva. Uma das cirurgias íntimas mais realizadas no Brasil é a labioplastia (ou ninfoplastia), que diminui os lábios vaginais internos. Algumas pacientes se submetem ao procedimento por razões estéticas, desejam uma “vulva mais bonita” para ter mais qualidade de vida social e sexual. Outras recorrem à cirurgia íntima porque os lábios internos maiores causam dor ao vestir uma roupa mais justa, andar de bicicleta e fazer sexo.

Pessoas mais velhas se importam mais com a funcionalidade da vulva e da vagina. É fato que o avançar da idade traz alterações hormonais e físicas, como perda de pêlos pubianos, secura vaginal e dificuldade de lubrificação no ato sexual, atrofia genital, frouxidão dos músculos ao redor da vaginal (que causa a sensação de flacidez vaginal e flatos vaginais) e uma flacidez dos lábios externos.

Todas essas mudanças são fisiológicas, ou seja, naturais. Existem algumas medidas que podem ajudar a manter a função e a saúde vaginal, como os exercícios dos músculos do assoalho pélvico (fisioterapia pélvica), reposição hormonal, uso de lubrificantes vaginais para diminuir o atrito no ato sexual, laser vaginal e radiofrequências. 

Impacto na vida sexual 

A autoestima genital tem correlação direta com a autoconfiança sexual. Pessoas que convivem bem com a sua estética genital se sentem mais atraentes, têm maior frequência sexual, mais desejo sexual, permitem mais sexo oral e chegam mais facilmente ao orgasmo. A satisfação com o órgão genital também deixa a ida ao ginecologista e a realização de exames ginecológicos mais confortáveis. 

Quando a autoimagem genital é negativa, tanto a saúde mental como sexual podem ser afetadas, provocando ansiedade, dor sexual, falta de libido e dificuldade de chegar ao orgasmo. Algumas pessoas até evitam encontros sexuais por vergonha de tirar a roupa e expor os genitais, cobrem o corpo ou apagam a luz. A insegurança cresce diante de comentários desagradáveis da parceria sexual ("Você está larga", "Você é diferente de todas as outras" etc).

Portanto, se você sente que não tem uma boa relação com a sua vulva/vagina, vale refletir em primeiro lugar: QUEM acha que ela é feia, larga, grande ou [adicione aqui um adjetivo negativo]? Alguém já te fez acreditar nisso ou você realmente tem essa queixa? Busque dentro de você o que é uma genitália “normal” antes de sair atrás de um procedimento cirúrgico. Às vezes, a pessoa consegue a “vulva dos sonhos” e a autoestima continua ruim. A questão é quase sempre mais profunda do que parece.

*Foto: Pexels

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