Um homem negro e um homem branco estão frente a frente, sorrindo, em um jardim.

Ativo, passivo ou versátil: “quem é o homem da relação?”

Rótulos que revelam preferências sexuais de gays também denunciam machismo e preconceito contra LGBT+

Por Rafael Zeni

Pedro*, um paciente gay de 35 anos, sentia curiosidade de “ser passivo” no sexo com o parceiro e isso lhe causava certa angústia - até então ele só ocupara o lugar “ativo” na dinâmica do casal. Como psicólogo e sexólogo, é meu papel convidar à reflexão e investigar a origem desse sentimento para que (talvez) ele se dissipe.

- Mas qual a relação entre o sexo anal e o que vão pensar de você? – perguntei.

- Ah, sei lá, ele me conheceu machão... Acho que, se eu “desse”, pegaria mal e ele não gostaria mais de mim.

- E qual a relação entre a possibilidade de ser penetrado e a sua masculinidade? Homens que penetram são mais homens? É isso? 

- É... – respondeu, desconfiado.

- Fale mais...

- Bom, meu namorado me conheceu ativo. Gosto muito dele e não quero correr o risco de perdê-lo por “viadisse” minha.

- Entendi. Mas ele falou ou demonstrou algo que poderia justificar esse seu receio?

- Na verdade, não. Mas eu sei. Ele curte caras masculinos.

- Você acha que se deixar penetrar vai se refletir no seu comportamento? Você será menos masculino a partir disso?

(Silêncio)

- Não. Mas não sei o que se passa na cabeça dele...

- E na sua cabeça, o que passa?

- Ah, eu acho que meu comportamento não mudaria só por ser passivo. Sei lá, tenho vergonha...

- Do que você tem vergonha?

- De não ser visto como homem. De ser visto como fraco. Não quero ofender ou diminuir os outros gays, mas não consigo ser assim...

- Assim como?

- Alegre. Afeminado? Hum, não gosto de usar essa palavra - é feia...

- Por que feia?

- Porque é preconceituosa. Na realidade, acho que essa minha angústia lembra a época em que vivi “no armário”. Eu sentia vergonha de ser gay e me cobrei muito para ser masculino. Sinto que as pessoas me respeitam mais assim. Se eu for passivo e descobrirem, vou perder esse respeito?

- Compreendo. Importante a sua percepção. Essa relação de preconceito consigo mesmo é muito comum entre nós, LGBTs. As nossas preferências sexuais também podem sofrer com nossa opinião. Mas você mesmo está apontando que, ao que parece, sua postura e comportamento não mudariam diante uma experiência como passivo. Assim, o convido a refletir sobre outras pessoas que são passivas e masculinas ao mesmo tempo. O seu namorado, por exemplo, como ele se identifica?

- Como versátil, apesar de nunca ter “feito ativo” comigo. Na real, ele se queixa disso às vezes.

- E você acha que ele é um cara masculino?

- Muito, até mais do que eu (apesar de ele não se importar com isso).

- Ele sabe que você buscou por psicoterapia? Ele sabe das suas questões?

- Sabe. Ele faz terapia e disse que me faria bem. Me ajudaria a me aceitar...

- Aceitar?

Pedro esboçou um sorriso tímido. Parece ter começado a compreender que tal angústia é provocada por suas próprias convicções, como o seu conceito sobre “ser homem”. A homofobia internalizada é outro fator associado à sua queixa, aparentemente muito simples, mas que mexe em profundas camadas do seu psiquismo. Pedro, um paciente inventado para este texto, representa pessoas reais da minha prática clínica que usam rótulos sexuais para descrever e identificar preferências sexuais no sexo anal: ser ativo, passivo ou versátil.

Pessoas que geralmente penetram a parceria com o seu pênis ou uma prótese peniana são chamados de ativos. Quem gosta de ser penetrado frequentemente se identifica como passivo. Se varia entre as duas posições/papéis no sexo, recebe o título de versátil. Isso vale para a prática anal, oral ou fisting (introduzir a mão ou antebraço no ânus). É interessante que, no outro extremo, cresce o movimento de homens gays que não curtem penetração - no , o sexo envolve beijos, amassos, sexo oral, beijo grego e afins.

Pedro entendeu que os homens gays ou bissexuais ativos podem ser considerados mais dominantes, masculinos e viris se comparados a gays ou bissexuais passivos, tidos como submissos, femininos e sensíveis. Esses rótulos que reforçam os estereótipos de gênero, de masculinidade e feminilidade, desempenham um papel importante nas relações entre pessoas do mesmo sexo. Para além de se impor uma regra que não faz muito sentido na prática sexual, Pedro também acaba reproduzindo um saber machista e muito misógino, que no fundo desmerece e inferioriza aquilo ou aquele que possui características tidas como femininas.

O sexo anal é permeado por tabus e falta de informação. O preconceito percebido no relato de Pedro é bastante comum entre os pacientes homossexuais masculinos. Questões associadas ao masculino, ao machismo, a heteronormatividade e ao preconceito social são importantes fatores a serem considerados quando percebida alguma dificuldade na vivência da sexualidade. Por mais impressionante que possa parecer, dentro do próprio meio LGBTQIAP+ são reproduzidas falas e posturas comuns ao meio hétero – como a LGBTfobia.

Em aplicativos de “pegação” (Grindr, Scruff, Hornet, dentre muitos outros), vemos um show de horrores contra pessoas afeminadas, gordas, pretas, trans e não binárias. Não é de se surpreender que aqueles considerados passivos também sejam alvo. E digo “considerados” porque determinadas características físicas e comportamentais também afetam a leitura social sobre a intimidade de uma pessoa. Não basta ser ativo, tem que ter postura e cara de ativo: másculo, viril, forte, macho. Seguindo essa rasa linha de raciocínio, todo afeminado é passivo, frágil e inferior.

Há no universo homossexual uma tendência à repetição do modelo heterossexual e binário, em que os papéis de homem e mulher são bem definidos e fervorosamente defendidos. Por isso tantas regras e normas sobre o comportamento sexual. É daí que a sociedade abre margem para aquela invasiva e homofóbica pergunta: “Quem é o homem/a mulher da relação?”. Depois de alguns meses de sessões, Pedro entrou pela porta do meu consultório:

- Sabe, Rafael, foi libertador entender que o ânus é só mais uma parte do corpo que pode proporcionar prazer. Por que me privei por tanto tempo de experiências sexuais como essa? No início da terapia, queria que me tirasse da cabeça a vontade de ser passivo. Eu realmente tinha uma visão torta da coisa.

- E agora, Pedro?

- Eu finalmente me permiti ser livre. Achei que me aceitasse enquanto gay, mas percebi que estava me privando por medo. Já basta o mundo colocar empecilhos e limites para a minha existência... Eu não vou contribuir com isso. Hoje posso dizer, com toda convicção e orgulho, que realmente me aceito.

Voltar para o blog

Deixe um comentário

Os comentários precisam ser aprovados antes da publicação.