Uma mulher branca de cabelos compridos está sentada em uma mesa enquanto olha para o celular. Ao redor dela, há ilustrações de corações e notificações de emails, mensagens e curtidas.

Apps de encontros: o amor está em promoção?

Em um mundo cada vez mais conectado por redes sociais, os relacionamentos se tornaram superficiais e descartáveis.

Por Café com Pimenta

As redes sociais e os aplicativos de encontros não apenas multiplicaram as possibilidades de “match” como agilizaram os “dates” – e criaram o “ghosting”. Guardamos no bolso ou na bolsa um extenso cardápio de pretendentes, mas é quase tudo “fast food”. As relações afetivas se dão por meio de laços momentâneos e volúveis, tornaram-se superficiais e pouco seguras. O amor está em promoção. 

Perceba como essas relações acontecem à nossa volta. Pense no seu perfil em alguma rede social. Quantas pessoas você segue e quantas seguem de volta? Com quantas dessas pessoas você realmente consegue se relacionar? Em quantos aplicativos de encontro você está? Com quantas pessoas você deu “match” e não trocou mais do que meia dúzia de palavras?  

O sociólogo polonês Zigmunt Bauman cunhou o termo “sociedade líquida” para descrever o estilo de vida nesta sociedade moderna. Ele afirma que “as instituições, as ideias e as relações estabelecidas entre as pessoas se transformam de maneira muito rápida e imprevisível”. Nesse contexto, o “amor líquido” é difícil de delinear e de segurar. Ele não assume forma. Ele escorre entre os dedos. 

Por um lado, a tecnologia viabiliza a conexão entre pessoas que estão em qualquer lugar do mundo através de cliques no celular. Por outro, os critérios de escolha sobre com quem decidimos nos conectar estão cada vez mais rasos e baseados na vida editada das redes sociais. São fotos com filtros e poses estratégicas para mostrar apenas o melhor ângulo, exibir corpos sarados...

Nos “dates”, há pouca conversa ou profundida. Já o sexo ficou mais fácil, rápido e não requer intimidade. Logo a conexão entre as pessoas perde o sentido e elas começamos tudo de novo. Novas buscas, ansiedade, medo da rejeição, necessidade de aprovação e a frustração sempre à porta. Muitos encontros marcados pelo Tinder e Happn nem se concretizam – a motivação não é suficiente ou aparece outra pessoa aparentemente mais interessante.

Como as relações assumem um caráter “descartável”, as pessoas temem ser trocadas a qualquer momento. Além disso, falta comprometimento. O vínculo amoroso é frágil porque muitas vezes não há tempo nem disposição para discordâncias, diálogos profundos e convivência real. Diante de uma dificuldade ou contratempo, é comum que o relacionamento simplesmente acabe. Sem muito esforço ou investimento para fazer os ajustes necessários.

Casais se desconectam, se bloqueiam, se excluem da vida e das redes sociais. Não é raro que isso aconteça sem peso na consciência e sem responsabilidade afetiva – na linha do “o meu bem-estar é a única coisa que importa”. De frustração em frustração, muita gente se protege cada vez mais atrás das telas, buscando recursos para lidar com a dor da realidade enquanto performa uma autoestima inabalável no Instagram...

Quando você chega da balada, não dá para se enganar: o vazio existencial continua lá. Será que algum dia vamos equilibrar a liberdade de escolha com suas infinitas possibilidades ao mesmo tempo em que valorizamos o que realmente nos importa? E o que importa em um relacionamento – amor, prazer, satisfação, segurança, projetos em comum, valores parecidos? 

E tudo bem não ter respostas imediatas para essas perguntas. Refletir sobre elas já significa um movimento de mudança interna.  

 

*Foto: Pexels

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