Uma mulher negra de cabelos na altura dos ombros está com expressão de tédio, apoiando o rosto em uma das mãos, sobre uma bancada rosa. Há um grande relógio de ponteiro ao lado dela.

Anorgasmia feminina: o tempo passa e você quase nunca “chega lá”?

A dificuldade persistente em atingir o orgasmo é uma disfunção sexual comum entre as mulheres. Descubra as causas e os tipos de tratamento

Por Teresa Embiruçu

Você sente desejo sexual, mas tem dificuldade de atingir o clímax com a sua parceria? Mais de metade (55,6%) das mulheres brasileiras cisgênero não costuma chegar ao orgasmo nas relações sexuais, de acordo com um estudo do Projeto de Sexualidade da Universidade de São Paulo (Prosex/USP), divulgado em 2017. Embora a estatística seja lamentável, não significa que todas elas sofram de anorgasmia - também conhecida como transtorno do orgasmo feminino.

Antes de falar sobre causas, critérios diagnósticos e tratamentos para essa disfunção sexual, vamos esclarecer como é o orgasmo feminino. Há muita confusão porque algumas pessoas imaginam que, para gozar, a mulher cisgênero deve liberar um líquido semelhante à ejaculação masculina. Não é verdade! Poucas mulheres (menos de 5%, segundo pesquisas) passam ou já passaram pela experiência, que está ligada às glândulas de Skene.

Além disso, precisamos lembrar que orgasmo e prazer são fenômenos diferentes. O orgasmo é a resposta física, contrações involuntárias na região da vagina que duram alguns segundos e parecem com “tremidinhas”. O prazer é a satisfação por ter se envolvido no ato sexual, ganhando intimidade emocional, aconchego e sensação de pertencimento. Portanto, você pode sentir que a transa foi prazerosa, mesmo que não tenha tido um orgasmo.

Como identificar a anorgasmia?

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM – 5), referência mundial para questões de saúde mental e sexualidade, existem alguns critérios para diagnosticar a anorgasmia ou transtorno do orgasmo. A disfunção sexual é caracterizada pela ausência, demora ou diminuição da intensidade no orgasmo, apesar do desejo e da excitação com estímulos adequados, em mais de 75% das relações sexuais e que persiste por pelo menos 6 meses.

O grifo é para reforçar que o orgasmo não surge do nada: se a vontade de transar não estiver presente e a excitação não for boa o suficiente (com carícias de qualidade) ... as chances de ele aparecer são pífias! E essa duração estipulada serve para diferenciar a anorgasmia de situações transitórias da nossa vida que naturalmente dificultam o orgasmo. Por exemplo: a perda de emprego, pressão para engravidar, problemas financeiros, luto, mudança de cidade etc. Além disso, a falta de orgasmos pode acontecer apenas com determinadas parcerias sexuais ou circunstâncias (como sexo casual).

Causas mais frequentes

Não existe uma única causa para a anorgasmia feminina, geralmente ela é composta por múltiplos fatores: físicos, psicológicos, sociais, relacionais. Existem vulnerabilidades individuais, como não gostar da própria imagem corporal, histórias de abuso sexual ou psicológico, educação sexual castradora ou inexistente. Crenças religiosas que associam o sexo à culpa por meio do conceito de pecado, de que é uma prática suja.

Qualquer tipo de medo pode atrapalhar o orgasmo - de sentir dor, de engravidar, de contrair uma doença, de ser julgada pelas preferências sexuais e até medo de gostar do sexo. O contexto do relacionamento (é casual ou há intimidade e confiança) também age como fator determinante, por exemplo, se a pessoa tem necessidade de afeto e vínculo para se entregar sexualmente. Ou mesmo se existe discrepância entre os comportamentos sexuais, como parcerias que gostam de práticas e fantasias muito distintas.

Outra causa comum para a anorgasmia são características de personalidade, com perfil mais controlador e hiper vigilante; quem pensa muito e não consegue abandonar o lado racional para experimentar as sensações do corpo; pessoas que não focam em si, mas em agradar a parceria. Tanto a ideia fixa de “preciso chegar lá” quanto “preciso mostrar que estou gozando” são inimigas do orgasmo. Você não precisa nada! O segredo está em pensar menos e sentir mais.

Como tratar

O tratamento da anorgasmia inclui abordagens tão diversas quanto as causas dessa disfunção sexual. Pode envolver exercícios de autoconhecimento, sessões de terapia sexual (para ressignificar traumas, desconstruir mitos etc), consultas com profissional de ginecologia (em caso de dor no sexo, dúvidas sobre métodos contraceptivos etc) e de fisioterapia pélvica (para avaliar a saúde da musculatura pélvica e sua consciência corporal). Se você estiver em um relacionamento de compromisso, trabalhar na melhoria da intimidade sexual também é um ponto importante.

A masturbação é uma importante ferramenta no processo de (re)encontro com o prazer sexual. Escrevi uma série de textos para o blog da Luvv sobre essa prática sexual solitária: tabu, benefícios à saúde, guia para a primeira vez e como aprimorar a masturbação. Explorar as suas fantasias sexuais e o seu corpo, descobrir como gosta de ser estimulada é fundamental – e não depende de ninguém além de você.

Outras dicas são os exercícios perineais com ou sem acessórios (popularmente conhecidos como pompoarismo) para aumentar o fluxo sanguíneo na região pélvica, aprender a relaxar e contrair os músculos; praticar a atenção plena (mindfullness) para que o pensamento se entregue ao lado sensorial; associar estímulos em vários pontos erógenos ao mesmo tempo (como clitóris e penetração vaginal). A terapia hormonal e o laser vaginal também podem ser interessantes para pessoas na menopausa com dor na penetração ou dificuldades de lubrificação vaginal, por exemplo.

Se você desconfia que tem anorgasmia, procure ajuda profissional. Estamos aqui e acreditamos que o seu corpo e as suas fantasias são os grandes geradores dessa energia deliciosa chamada orgasmo. E você a merece, acredite!

Voltar para o blog

Deixe um comentário

Os comentários precisam ser aprovados antes da publicação.