Um homem trans branco e de cabelos curtos está sentado na lateral de uma cama, com os cotovelos apoiados nas pernas e as mãos cruzadas. Ele veste uma calça jeans e uma camiseta roxa.

A invisibilidade social do homem trans - e o pioneirismo de João W. Nery

Como eles compõem cerca de metade da população transgênero, mas passam despercebidos na multidão

Por Márcia Rocha

Lembro bem da sensação de profundo espanto que tive quando entrei naquela sala e, numa roda de conversa com cerca de oito pessoas, estavam cinco homens trans! Cinco de uma vez! Era 2009, salvo engano, e eu havia sido convidada pela coordenadora do Centro de Referência da Diversidade (a saudosa Janaína Lima) para discutir as “transmasculinidades”. Embora frequentasse semanalmente os eventos realizados ali, esse termo era inédito para mim, assim como ver cinco homens trans juntos.

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Quando iniciei no ativismo do movimento transgênero, lá em 2007, em quase todas as reuniões de travestis e transexuais só havia um único homem trans: Alexandre Peixe dos Santos, meu amigo “Xande da Parada”. Anos mais tarde, já assumida publicamente e integrando a Comissão da Diversidade Sexual da OAB/SP, minha amiga Leticia Lanz me ligou: um escritor gostaria de me entrevistar pessoalmente sobre um caso em que advoguei para uma militar trans. Por uma questão de agenda, falamos por telefone. Só em 2011, com o lançamento de seu livro “Viagem Solitária”, conheci João W. Nery e nossos encontros se tornaram frequentes.

O pioneiro João W. Ney

Escritor e psicólogo, João foi o primeiro homem trans a realizar uma cirurgia de adequação de gênero no Brasil, em 1977. Ao revelar publicamente sua história de vida, abriu caminhos para muitas outras pessoas. Passávamos horas conversando nos eventos nos quais participamos como ativistas pelos direitos LGBT+, assim como em hotéis pelo país e nas ocasiões em que ele se hospedou na minha casa.

Testemunhei como a sua experiência pessoal, transformada em luta pública, ganhou corpo. Estive com João no primeiro encontro nacional da Associação Brasileira de Homens Trans (ABHT), em 2012, e fiquei pasma ao ver cerca de trinta homens trans reunidos. Pouco mais tarde, foi fundado o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT), atualmente a maior associação de homens trans do país.

Quando conversava com João sobre a dificuldade que as pessoas trans enfrentam para conseguir um emprego, ele contou que o Paulo Bevilaqua, homem trans de Minas Gerais, tinha a ideia de construir um site com esse propósito. Assim surgiu o Projeto Transempregos, uma plataforma digital que conecta currículos de pessoas trans a empresas interessadas em contratá-las. Atualmente temos mais de vinte e quatro mil inscrições (40% com ensino superior), sendo que os homens trans passam de doze mil!

A invisibilidade do homem trans

Aproximadamente metade da população trans é composta por homens trans, que são bem menos visíveis por várias razões. A terapia hormonal com testosterona é muito eficaz e rápida na modificação dos caracteres sexuais secundários: em pouco tempo, eles ganham barba e musculatura, muitos ficam carecas. Enquanto nós, mulheres trans, geralmente somos altas demais, temos ombros largos demais, mãos e pés maiores que a média feminina, a grande maioria dos homens trans hormonizados passam totalmente despercebidos em meio à multidão. Entretanto, percebamos ou não, eles existem.

Tal invisibilidade se acentuou ainda mais com a decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2018, que permitiu que pessoas trans alterem prenome e sexo nos documentos. Até então, toda alteração de nome dependia de ação judicial. Minha companheira, a advogada Ana Carolina Borges, atuou em mais de cem processos do tipo no país, sendo quase todos para homens trans. Em geral, eles se assumem e fazem a transição mais tarde do que as mulheres trans, já estando com o segundo grau completo ou cursando uma faculdade.

Recentemente, um levantamento oficial no município de São Paulo mostrou que menos da metade das mulheres trans estão ou já estiveram na prostituição - nenhum homem trans naquela pesquisa. Vejo travestis nas ruas desde a infância. Durante o regime militar, as profissionais do sexo eram as únicas pessoas trans visíveis, oprimidas, presas, violadas. As demais, como eu, permaneciam ocultas, temerosas, “no armário”. Só muito mais tarde fui conhecer mulheres transexuais em sua luta por cirurgias de redesignação sexual, juntamente com a luta de travestis por atendimento no SUS, entre outros direitos.

Nos últimos anos, em congressos internacionais, me perguntaram muitas vezes sobre o “fenômeno” dos homens trans no Brasil – que se multiplicaram de uma hora para outra. Médicos de outros países chegaram a temer que essa “epidemia” se espalhasse pelo mundo. Tranquilizando-os, afirmo sempre que não precisam se preocupar, pois o que aconteceu foi apenas um livro.

O livro de João W. Nery foi como uma pequena vela na escuridão da noite atraindo os olhares dos homens trans que, se aproximando, puderam ver a própria imagem. Ouvi diversos relatos de leitores que finalmente constataram: “É isso que eu sou”. Mais que um amigo, João foi um companheiro de lutas e um ser de luz. Falecido em 2018, deixou saudades e um imenso vazio filosófico em minha vida – a falta que sinto de nossas conversas francas, descontraídas e profundas é imensurável. Seu último livro, “Velhice Transviada”, foi escrito durante a luta contra o câncer e publicado post mortem.

Que legado, meu querido!

 

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