Uma mulher branca de cabelos castanhos compridos e ondulados segura em frente ao rosto uma pequena bandeira colorida que simboliza a luta LGBT+.

A bifobia como apagamento da identidade bissexual

Não é só uma fase. Conteudista convidada revela por que sua orientação sexual é ignorada ou vista com desconfiança pela sociedade

Por Priscila Siqueira (@valepcd)

Sexualidade nada mais é do que uma maneira de se colocar no mundo, de se afirmar. Invalidar uma sexualidade é invalidar a existência/vivência de alguém. A bissexualidade e a pansexualidade são exemplos desse apagamento social: elas são diminuídas, ignoradas e até mesmo questionadas. Há quem ache que “é só uma fase” ou inclinação à “promiscuidade”. Mas, a despeito do achismo alheio, tais orientações sexuais existem porque pessoas como eu se reconhecem através delas. 

Durante muito tempo, a bissexualidade foi erroneamente interpretada como a atração sexual por homens e mulheres. Embora a antiga “fama” persista, hoje em dia há um importante esforço da comunidade LGBT+ para desmistificá-la. Na verdade, bissexuais sentem atração por mais de um gênero – ou por todos os gêneros (transgênero, gênero neutro, não-binário etc).

Nesse sentido, a pansexualidade já é historicamente conhecida como um movimento mais inclusivo por romper com a binariedade (feminino e masculino), acolhendo outros gêneros. No fim das contas, apesar de terem origens diferentes, a bissexualidade e a pansexualidade tratam da mesma atração sexual. A forma como uma pessoa se denomina (bi ou pansexual) depende somente da própria identificação. 

Eu me descobri bissexual antes mesmo de saber o que isso significava: beijava meninas nas brincadeiras de crianças e até hoje não parei – sigo atraída por mulheres. Não tive uma adolescência típica, recheada de história para contar, por causa das barreiras que encontrei nessa fase da vida. Nasci com uma deficiência e passei a ter mais autonomia já adulta. Foi quando comecei a sair de casa com frequência, a conhecer pessoas, a ter experiências mais intensas e realmente me perceber no mundo.

Então compreendi que sexualidade também é socialização. A gente se entende melhor enquanto comunidade, compartilhando a vida. Ser uma pessoa com deficiência (PcD) bissexual me coloca numa posição de invisibilidade de diversas formas. A maioria ainda não nos enxerga como seres sexuais, que têm desejos e podem desejar se relacionar. Imagine dizer que, além de PcD, eu também tenho uma orientação sexual tão complexa...

É comum que sejamos rotuladas como pessoas indecisas ou promíscuas, o que revela por si só o tamanho da desinformação e do preconceito. Além disso, há uma certa fetichização da bissexualidade, principalmente do gênero feminino. Basta abrir os aplicativos de relacionamento e notar a grande busca por bissexuais para fazer sexo a três, por exemplo. 

Na própria comunidade LGBTQIA+, existe bifobia (termo que descreve a discriminação contra bissexuais). Algumas mulheres lésbicas não dão abertura para mulheres bis apenas por acreditarem que somos infiéis em potencial ou acharem que serão trocadas por homens a qualquer momento. O mito de que a bissexualidade é “só uma fase” muitas vezes é perpetuado por pessoas homossexuais que, na tentativa de “preparar o terreno” antes de efetivamente “saírem do armário”, primeiro alegam serem bissexuais.

Também vale dizer que você pode ser bissexual e nunca ter se relacionado com outro gênero além daquele que é lido como oposto ao seu. Por exemplo, um homem cisgênero bissexual que só beijou ou transou com outras mulheres cisgênero. Está tudo bem: o que afirma uma orientação sexual é o desejo. Todo desejo e toda vivência são válidos e devem ser respeitados. Não reduza nada nem ninguém a estereótipos e pré-julgamentos. Eles podem limitar ou machucar pessoas.

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